14 de outubro de 2016

The man who sold the world

O Homem que caiu na Terra e seu marcador.
O Homem que caiu na Terra de Walter Tevis é uma obra peculiar. O livro foi adaptado aos cinemas por Nicolas Roeg em 76, 13 anos depois de sua publicação, e contava com ninguém menos que David Bowie no papel de Thomas Jerome Newton, literalmente o homem que caiu na Terra do título. Considero que livro e filme partem do mesmo ponto, com o mesmo Thomas Newton. A alienação natural de Bowie nas telas, provavelmente efeito das viagens nas drogas na época das filmagens, deu ao protagonista uma decadência extremamente convincente, autêntica, algo que enriquece a adaptação e dá outra dimensão ao texto em que se baseia o filme. O antheano no livro é descrito com cabelos prateados, cacheados, e uma pele levemente bronzeada, a única semelhança com Bowie está na altura e na compleição física, ambos são muito magros. Ainda assim não consegui ter outra imagem de Thomas que não a de Bowie em minha mente, dada a marca que a interpretação dele deixou em minha mente. A capa da primeira edição nacional do livro, publicada pela Darkside Books, ajudou a manter essa impressão já que traz o Camaleão do Rock em destaque, algo que considero justo, já que filme e livro caminham juntos no meu imaginário e acredito que no de muitos outros fãs.

Uma bela tradução.
Confesso que nunca havia lido o livro de Walter Tevis até ter em mãos a edição da Darkside. Meu contato foi com o filme de Bowie através de um VHS numa locadora de minha cidade nos anos 90. Sempre considerei o filme como um de meus favoritos apesar de não parecer em nada com o que eu tinha como ficção científica até então. Apesar de contar com o mesmo produtor de Blade Runner, o filme é uma ficção científica que fala de temas diferentes, mais próximos da humanidade de hoje como o abuso dos recursos naturais e consciência ecológica. Os antheanos acabaram com os recursos naturais de seu planeta e nós estávamos fazendo o mesmo com os nossos, a diferença de O Homem que caiu na Terra pra outras ficções com esse tipo de mensagem está no que fazemos com aquele que quer apenas salvar seus semelhantes e isso sempre foi o que mais me marcou no filme e que com o livro, ganhou outra dimensão. Enquanto no filme vemos Newton se deixar corromper pelos vícios e valores humanos, no livro temos Newton se deixar levar pelo desgosto e amargura, como se nem os antheanos, tampouco os humanos, merecessem salvação.

Poster da restauração do filme em 4K.

A jornada de Newton começa no Kentucky, logo após sua chegada na Terra. Aplicando pequenos golpes, ele junta dinheiro o suficiente pra encontrar o advogado de patentes Oliver Farnsworth e assim começa seu plano fundando a World Enterprises, uma empresa que entrega ao mundo novas patentes revolucionárias em várias áreas do conhecimento, rendendo muito dinheiro aos envolvidos. As diferenças entre livro e filme começam quando surge o Professor de Química Nathan Bryce que no filme é apresentado como um cafajeste interesseiro que desenvolve um súbito interesse pela World Enterprises e no livro é apresentado como um sujeito amargurado, um professor cansado do ambiente universitário, desiludido com a idade e viúvo, alguém que apela pro álcool como válvula de escape de seu mundo enfadonho e que também acaba se interessando pelas surpreendentes inovações tecnológicas da World Enterprises. O plano de Newton consiste em juntar recursos com sua empresa pra construir uma nave que no filme visa levar recursos naturais ao seu planeta natal, Anthea, enquanto no livro visa trazer todos os antheanos sobreviventes pra Terra. Tanto no livro como no filme, são os humanos que guiam Newton pela trama, principalmente Bryce e Betty Jo (Mary-Lou no filme). Tanto no livro como no filme, é Betty quem introduz Newton ao vício do álcool, a diferença é o tom do relacionamento entre os dois, no livro algo platônico, no filme, Mary-Lou se torna mais um objeto no mundo de Newton.

Parabéns à Darkside pelo capricho! Os fãs agradecem!
É interessante notar que em ambas as mídias é Bryce quem leva Newton ao extremo: seja corrompendo o alienígena ou contaminando com sua amargura. No livro os recursos naturais também são levados em conta mas é o medo da guerra nuclear que mais assusta o alienígena já que uma guerra semelhante devastou Anthea. Ao perceber que seguimos o mesmo rumo com a nossa civilização, Newton começa a desenvolver uma espécie de cinismo quanto ao seu propósito, a salvação dos últimos antheanos e da humanidade. Walter Tevis guia o leitor nessa jornada e faz com que sintamos toda a estranheza e desgosto de Thomas Newton a cada momento de sua relação com os seres humanos. A tragédia de Newton tem sua maior metáfora no mito de Ícaro, da mesma forma que no filme, ainda que com um desenvolvimento diferente do livro. O Homem que caiu na Terra é uma grande obra, um clássico que discute a humanidade em sua essência e que foi belamente adaptado aos cinemas, mantendo a mesma discussão sobre a humanidade com o mesmo nível, ainda que sob outro prisma. Finalmente tive o prazer de conhecer o livro que inspirou esse filme que é um dos meus favoritos e que agora me revelou um livro igualmente fascinante. Recomendo a todos a leitura, principalmente agora com a edição caprichada da Darkside Books, com um acabamento gráfico fantástico, cheio de referências ao filme e ao seu astro, David Bowie, literalmente O Homem que caiu na Terra.

Se você deseja saber mais sobre o filme de Nicolas Roeg, confira a resenha do Sentinela!

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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.



12 de outubro de 2016

Histórias de ninar de galáxias distantes

Boa noite, Darth Vader!
Não conheço uma viva alma que não tenha ouvido uma canção ou história de ninar quando criança. Também não conheço ninguém que nunca tenha ouvido falar em Star Wars. Dito isso, Boa noite, Darth Vader de Jeffrey Brown, publicado pela primeira vez no Brasil pela Editora Aleph, vem em boa hora, tanto pra pais que querem ler uma história de Star Wars pra seus jovens filhos como pra adultos como eu que não se cansam de Star Wars e se encantaram com Darth Vader e filho e A princesinha de Vader, do mesmo autor, também publicados pela Aleph. Quando resenhei esses livros ano passado, a dica era pra presentar no dia dos pais, hoje, Boa noite, Darth Vader vem como sugestão pro dia das crianças. Acredito que na verdade os 3 livros agradam a todas as idades tanto quanto um Calvin e Haroldo ou uma Mafalda agradam jovens e adultos. Você pode ler os quadrinhos de Brown com os olhos de uma criança e se divertir com as situações engraçadas que Luke, Leia e seus amigos aprontam tanto quanto pode ler com os olhos de Vader no papel do pai que tem que lidar com as travessuras de seus filhos.

E a história começa...
Em Boa noite, Darth Vader o formato tradicional das tiras cede espaço ao formato dos livros infantis, daqueles pensados justamente em histórias pra ninar. Cada quadro traz uma frase, ocasionalmente uma fala dos personagens mas sempre com rimas calmas e tranquilas, sempre fazendo referência à hora de dormir. E não precisa se preocupar com referências, todos os filmes de ambas as trilogias tem sua vez em Boa noite, Darth Vader, pode contar até mesmo com a presença de Jar Jar Binks! Ficam aqui os elogios à arte do autor que continua primorosa como destacado na resenha dos primeiros volumes da série. Cabe reconhecimento também ao tradutor Mateus Duque Erthal que conseguiu manter as rimas funcionando na versão brasileira, um desafio e tanto se pensarmos na dificuldade de se traduzir (e manter) rimas. A edição da Aleph mantém o mesmo capricho das anteriores e também merece todos os elogios no acabamento, impressão e letreiramento. Se você tem filhos, sobrinhos ou é mais um fã de Star Wars que se encanta com tirinhas como Calvin e Haroldo ou Mafalda, Boa noite, Darth Vader é pra você!


Até mesmo Sebulba tem sua vez...


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O Sentinela Positrônica é um Blog Parceiro da Editora Aleph.

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8 de outubro de 2016

Cromo, neon e referências

Edição especial de 30 anos.
Inteligências artificiais são lugar comum na ficção científica. Robôs como os de Asimov ou Computadores como Hal 9000 no 2001 de Arthur C. Clarke dividiram as atenções com androides como C3PO de Star Wars ou mesmo o simpático Robbie de Planeta Proibido. A computação muitas vezes era restrita a terminais e comandos de voz como visto muitas vezes na série clássica de Jornada nas Estrelas ou mesmo armários com várias luzes piscantes, formulários contínuos e vários bips como visto em tantos filmes de ficção científica até os anos 70. Tudo que precisávamos saber era que computadores processavam informações, sabe-se lá como. A informática era importante mas sempre coadjuvante nas tramas até que filmes como Tron em 1982 ousaram mostrar, ainda que de forma bastante ingênua, as possibilidades criadas por uma rede de computadores, um mundo virtual paralelo ao nosso. No mesmo ano, Ridley Scott lançava Blade Runner, um filme inovador, esteticamente povoado por referências, com uma trama remetendo ao cinema noir, corporações e muito neon mas ainda com influências definidas em movimentos já existentes. Com autores como Philip K. Dick e Kurt Vonnegut mostrando outras perspectivas da ficção científica, distantes de Asimov e Clarke, algo novo estava prestes a surgir. Rollerball de Norman Jewinson trazia aos cinemas um esporte violento moldado por regras corporativas em um futuro em que o esforço individual era minado por corporações. Alien de Ridley Scott trazia uma tripulação dada como descartável pela inteligência artificial que controlava a Nostromo e que atendia os desígnios de uma corporação inescrupulosa. Era hora de acontecer algo novo na ficção científica e esse algo novo surgiu de um grupo de autores no Texas, grupo encabeçado por William Gibson, Bruce Sterling e John Shirley. E tudo começou com o trabalho de Gibson em contos como Johny Mnemônico e Cromo Queimado e que foi cristalizado com sua obra-prima, Neuromancer.

A capa da nova edição da Aleph por Josan Gonzales, simplesmente linda.

Capa do jogo de 89 lançado pela Interplay.
Em 1984, Neuromancer definia os padrões estéticos e formais que viriam a caracterizar todo o estilo Cyberpunk: o padrão high tech, low life, o indivíduo oprimido pelas corporações, o governo perdendo sua autonomia perante grandes conglomerados, muito neon, cromo, mistura de culturas ocidental e oriental e principalmente, o ciberespaço e a matrix. Neuromancer entregou tudo isso e muito mais numa trama intensa, cheia de reviravoltas e com uma riqueza descritiva sem igual. Aqui saem de cena os robôs comandados pela lógica de um Asimov ou os mistérios e maravilhas futuristas de um Arthur C. Clarke e entra a sarjeta neon estilizada, frequentada por párias com suas próteses tecnológicas, a Yakuza, samurais de rua e os cowboys do ciberespaço. O próprio termo ciberespaço surgiu antes em Cromo Queimado, conto de Gibson publicado no Brasil pela Editora Aleph na Edição Especial de 30 anos de Neuromancer e que também trouxe o conto Johny Mnemônico onde o autor introduzia a samurai de rua Molly. Neuromancer juntou todos os elementos pendentes no ar que Gibson já havia trabalhado em seus contos. Em seu livro não temos um mundo virtual fantasioso como a grade em Tron, tampouco computadores prontos pra atender comandos de voz ou mesmo imprimir quaisquer resultados aleatoriamente em um formulário contínuo, aqui temos máquinas complexas, tecnologias como os decks de acesso à matrix, acessórios como o simstim que permitem o usuário dividir a consciência com outra pessoa e outros tantos dispositivos computacionais altamente sofisticados e com suas funcionalidades devidamente descritas pelo autor. Nada de servos eletrônicos prontos pra atender seus senhores com um mero comando de voz, aqui os personagens tem que interagir com a matrix em seus decks, quebrar virtualmente um ICE dentro do ciberespaço e roubar dados em servidores monitorados por inteligências artificiais altamente desenvolvidas.

Chiba City na adaptação cancelada
mas podia muito bem ser a
Los Angeles de Blade Runner
.
Blade Runner pode ter apresentado um futuro noir em que Los Angeles lembrava visualmente Chiba City ou o Sprawl ou em que a Tyrrel Corp. lembrava cenários como a torre da Sense Net mas por mais inovador que Blade Runner tenha sido nas telas, ainda faltou o toque computacional que Neuromancer trouxe à cultura pop. Os protagonistas Deckard e Case tem em comum o fato de serem caras comuns, bons no que fazem em um mundo que pouco se importa com eles, o típico papel do cara errado na hora e lugar errados que levam adiante toda boa trama noir. Blade Runner tem uma influência estética inquestionável em Neuromancer mas é na cibercultura que a obra de Gibson se diferencia dentro da ficção científica. A trama envolve o cowboy do ciberespaço Case que leva uma vida decadente em Chiba City depois que seus antigos contratantes sabotaram sua capacidade de entrar na matrix quando ele tentou se dar bem em cima deles. Desde então Case queima suas economias em Chiba City numa tentativa vazia de reabilitar suas capacidades em clínicas ilegais ou morrer na sarjeta levado de vez por seus muitos vícios. É quando Case está quase no fundo do poço que ele conhece Molly, a samurai de rua que já havia aparecido no conto Johny Mnemônico, que salva sua vida e oferece a ele uma oportunidade de recuperar suas habilidades, contanto que aceite trabalhar com seu empregador, o misterioso Armitage. Daí em diante os mistérios e as reviravoltas aumentam numa espiral envolvendo uma corporação secular, inteligências artificiais, muito neon, muito cromo, uma estação espacial e até mesmo dubstep jamaicano. O mistério envolvendo Armitage, quem ou o que é Wintermute, quem está por trás da Tessier-Ashpool e qual o propósito de todos os personagens serem colocados nessas situações são os motivadores dessa trama cheia de idas e vindas. A trama pode soar excepcionalmente descritiva pros leitores de hoje mas toda a prosa foi pensada em prol da construção desse mundo complexo nos mínimos detalhes. Experimente pesquisar no Google por imagens vinculadas ao termo Neuromancer e você verá as muitas interpretações visuais da obra de Gibson, uma mais fantástica que a outra.

A Sense Net como seria na adaptação cancelada para os cinemas.

Edição de 91, da coleção Zenith.
É fato que Neuromancer é um romance histórico, culturalmente relevante e indispensável na biblioteca de qualquer fã de ficção científica mas há que se lembrar que mais de 30 anos depois da publicação de Neuromancer o próprio Cyberpunk precisou se reinventar. Não existem mundos virtuais paralelos como a matrix, não existe ainda conectividade entre homem e máquina e mesmo quando a tecnologia surgir, definitivamente não será feita por meio de cabos. Constructos como Dixie Flatline ainda estão muito distantes da nossa realidade, por mais interessante que o conceito seja. Não temos ainda uma mistura de culturas ocidentais e orientais, não temos a Yakuza comandando a máfia nem samurais de rua andando por aí, o inglês ainda é o mais próximo de um idioma universal. Mas isso não quer dizer que não temos uma cibercultura com a internet nem que não estamos o tempo todo conectados no mundo paralelo das redes sociais, tampouco podemos negar que vivemos em um mundo onde as corporações mudam o destino de países inteiros. Isso significa que apesar de Gibson não ter previsto o smartphone ou mesmo conexões sem fio, ele conseguiu descrever um mundo ficcional com ideias muito próximas da nossa realidade, ainda que num contexto fantástico. Se não temos a matrix, temos a internet, temos a cultura dos memes e as relações virtuais, temos o mundo paralelo das redes sociais, a cultura hacker e os hackivistas e muitos outros fatores que lembram muito os conceitos mostrados por Neuromancer. A Trilogia do Sprawl pode ter elementos datados mas é inegável que Neuromancer e suas sequências, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, marcaram a cultura pop e a literatura de ficção científica. Se hoje temos séries como Mr. Robot, filmes como Estranhos Prazeres, animes / mangás como Ghost in the Shell ou jogos como Deus Ex, RPGs como Cyberpunk 2020 e outros tantos exemplos, tudo se deve ao trabalho criativo de Gibson e seus amigos autores que levaram o Cyberpunk da cultura alternativa ao mainstream.


 As sequências, Count Zero e Mona Lisa Overdrive

Neuromancer e William Gibson tem história no Brasil. Além de uma das inteligências artificiais do livro estar situada no Rio de Janeiro, o livro vem sendo publicado no Brasil desde os anos 90 pela Editora Aleph em edições revisadas e muito estilizadas. Tive o privilégio de ler todas as edições, desde a primeira publicada na coleção Zenith em 91 às edições comemorativas de 25 e 30 anos e a mais recente, com a estilosa capa do espanhol Josan Gonzales. Destaco a edição de 30 anos pelos extras com os contos Johny Mnemônico, Cromo Queimado e New Rose Hotel: contos que abriram o caminho criativo pra Gibson conceber o Sprawl em Neuromancer. As sequências, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, também foram publicadas pela Editora Aleph e ganharão novas edições com arte de Josan Gonzales nas capas em breve. Se você ainda não conhece o Sprawl ou a matrix de Neuromancer, aproveite. A viagem vale cada centavo.


</Curiosidades\>

Imagem do projeto cancelado de Leary.
* Timothy Leary, o guru do LSD, era um grande admirador de Neuromancer e tentou nos anos 80 produzir um jogo pra computadores baseado em Neuromancer, jogo que traria uma experiência inovadora pra época e traria grandes participações mas que acabou não saindo do papel. Anos depois Leary vendeu os direitos pra Interplay que fez um bom jogo mas sem muita relação com a trama original do livro. Você pode saber mais sobre essa história na matéria original da Wired e nesse artigo do The Verge, ambos em inglês. Cheguei a jogar o adventure da Interplay em 99 mas nunca terminei, do pouco que recordo, o jogo traz muito pouco do livro, apenas Case, Molly e Wintermute. Era um bom adventure mas um tanto cansativo, provavelmente motivo pra eu ter largado jogo. Um curiosidade: a trilha sonora é da Devo. Você pode baixar o jogo da Interplay aqui. Fica a torcida pro Good Old Games (GOG) portar o jogo pros sistemas operacionais atuais.

Página da Graphic Novel.
* Neuromancer ganhou uma graphic novel em 89 publicada pela extinta Byron Priess desenhada por Bruce Jensen e adaptada por Tom de Harven. A série adaptou as duas primeiras partes do livro mas não chegou a ser concluída. Você pode ler a HQ em inglês aqui. A arte e contextualização recomendam a leitura, principalmente pra quem não conseguiu mentalizar as descrições do autor no livro. Gibson recentemente escreveu um série em quadrinhos chamada Archangel, publicada pela IDW nos EUA. Você pode saber mais sobre Archangel e o projeto inacabado de Neuromancer nessa entrevista do autor ao Newsrama.

* Uma adaptação aos cinemas de Neuromancer circula por anos entre estúdios mas nenhuma tentativa foi adiante. Em 2011 artes e um roteiro chegaram a ser produzidos quando o diretor Vincenzo Natali (Cubo, Splice) estava ligado ao projeto. Você pode ver as artes da adaptação de Natali de Neuromancer e de outros filmes cancelados do diretor nesse artigo do Slash Film ou na matéria da Heavy Metal. Hoje o projeto continua nas mãos da produtora GFM mas sem diretor. Natali dirigirá o episódio piloto de Star Trek Discovery.

Johny Mnemonic ou Neo?
* Johny Mnemônico ganhou as telas do cinema em 95 depois de o projeto de um filme independente roteirizado pelo próprio Gibson não conseguir os recursos pra sair do papel. Com isso o filme do novato Robert Longo ganhou vida nova como uma grande produção protagonizada por Keanu Reeves. Várias alterações foram feitas tornando Johny o protagonista da ação, alterando o papel de Molly para uma nova personagem chamada Jane. O filme é interessante em alguns momentos e mostra vários dos conceitos criados por Gibson na trilogia do Sprawl mas não empolga os fãs depois de tantas alterações feitas pelo estúdio. Vale como registro, da mesma forma que a adaptação do conto New Rose Hotel de Abel Ferrara, essa sem envolvimento direto de Gibson. Anos mais tarde, Keanu Reeves protagonizaria Matrix, um filme muito mais interessante e relevante ao Cyberpunk.

* Anos depois do lançamento de Neuromancer, muitos fãs enxergam Alien de Ridley Scott como um bom exemplo de Cyberpunk. O filme conta com personagens descartáveis na visão da inteligência artificial da Nostronomo, o computador chamado pela tripulação de "mãe". Todos são vistos pela corporação Weyland Yutani como um meio pra se chegar ao xenomorfo. Temos uma IA atendendo os desígnios de uma corporação, protagonistas vivendo à margem da sociedade sendo tripulantes de um simples rebocador de petróleo espacial, enfim, vários elementos que mais tarde seriam caracterizados como essenciais ao Cyberpunk. A ironia é que em 87 William Gibson foi contratado pra fazer o roteiro de Alien 3, roteiro que teria colocado Ripley em coma e deixado o papel principal pra Hicks e o androide Bishop que teriam que enfrentar uma infestação xenomórfica numa estação espacial onde a Weyland Yutani fazia experimentos genéticos com os aliens. O filme acabaria com Bishop sugerindo que eles deveriam descobrir o planeta natal dos xenomorfos e erradicar a ameaça de uma vez por todas. No roteiro de Gibson, Ripley é enviada em coma pra Terra e uma nova força se apresenta, a UPP, uma espécie de União Soviética do futuro e que também acaba fazendo experiências com o xenomorfo, experiências essas que naturalmente dão errado. Partes desse roteiro acabaram influenciando a sequência em quadrinhos publicada anos mais tarde pela Dark Horse Comics mas que também acabaram sendo ignoradas quando Alien 3 foi finalmente produzido. Você pode saber mais sobre o roteiro cancelado de Gibson na AVP Wikia ou se quiser, ler o roteiro na integra aqui. Vale a pena aos fãs da série Alien, o roteiro era bem interessante.

Estranhos Prazeres.
* Uma das melhores inspirações cinematográficas em Neuromancer é o filme Estranhos Prazeres de 1995 dirigido por Kathryn Bigelow e produzido / roteirizado por ninguém menos que James Cameron. O filme traz um futuro não muito distante em 1999 onde um dispositivo muito parecido com o simstim de Neuromancer é usado pra criar squids: gravações de experiências vividas por outras pessoas que o usuário pode reviver depois numa espécie de realidade virtual. Você pode ter uma gravação de uma experiência sexual e vivê-la em primeira pessoa, tal como o simstim de Neuromancer. O protagonista Lenny Lero (Ralph Fiennes) contrabandeia (e usa) squids com essas experiências até o dia em que se depara com a gravação do assassinato de uma prostituta onde deveria haver uma gravação casual. A trama leva Lenny a se envolver com Lornette (Angela Bassett), uma personagem muito parecida com a samurai de rua Molly de Neuromancer, que o ajuda a descobrir o segredo por trás do squid com o assassinato. A semelhança de ambientações, linguagem, os personagens e como o mundo virtual e os vícios digitais são retratados fazem de Estranhos Prazeres o filme mais próximo de uma obra de Gibson levada aos cinemas. Considero uma homenagem de muito bom gosto num dos poucos casos que James Cameron não copiou ao pé da letra ideias de outros lugares. Infelizmente o filme não foi bem nas bilheterias e dividiu a crítica na época, o reconhecimento veio com o passar dos anos, principalmente pelos fãs. Kathryn se tornou a primeira diretora a ganhar um Saturn Awards com o filme.


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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

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24 de agosto de 2016

Estamos todos mortos

Mais uma capa caprichada da Editora Aleph!
Algumas biografias ultrapassam o limite da realidade quando o biografado flerta com a ficção. Philip Kindred Dick não apenas criava as suas ficções, ele as vivia intensamente. Todo autor tem um pouco de si em sua obra mas poucos trazem tanto do seu mundo em narrativas tão fora do convencional como PKD. A biografia do autor escrita pelo francês Emmanuel Carrère poderia muito bem se passar por ficção, não apenas pela abordagem de Carrère na escrita mas também pelo drama intenso e tresloucado descrito nas páginas de Eu estou vivo e vocês estão mortos. Não espere com esse livro uma biografia convencional com entrevistas e relatos de conhecidos do biografado, tampouco uma investigação documental precisa condensada numa grande reportagem. Eu estou vivo e vocês estão mortos é um romance escrito por Carrère com base em seu levantamento biográfico sobre a vida de PKD. Aqui o biografado é um personagem e o romance é sua vida, da infância aos últimos dias, cronologicamente situada pela sua breve, porém intensa, obra.

A obra de PKD guia o romance biográfico de Carrère.
Eu conhecia diversos fatos da vida de PKD antes de ler a biografia de Emmanuel Carrère: sua irmã gêmea falecida, Jane, a experiência com drogas nos anos 70, sua paranoia, a desavença com Stanislaw Lem e mesmo sua experiência religiosa dos anos 70. Matérias sobre o autor são fáceis de se encontrar a ponto de se montar um perfil. Antes de ler a biografia de Carrère eu esperava saber mais sobre esses fatos mas jamais imaginava a intensidade e o impacto desses acontecimentos na vida e obra de PKD. Com Eu estou vivo e vocês estão mortos descobri que a juventude de PKD foi influenciada por outro autor problemático: H.P. Lovecraft. Descobri também que assim como Lovecraft, PKD também tinha uma relação problemática com a mãe e que a presença da memória de sua falecida irmã Jane era uma constante em sua infância e uma ausência que o acompanhou por toda sua vida. De sua paixão por Lovecraft na juventude surgiu o título de um dos romances tratados na biografia de Carrère: o adjetivo eldritch dos textos de Lovecraft acabou por dar nome ao personagem Palmer Eldritch, este apenas um exemplo da influência do autor no desenvolvimento de PKD. Indico aqui a biografia A vida de H.P. Lovecraft de S.T. Joshi publicado no Brasil pela Editora Hedra para os leitores mais curiosos sobre a vida desse outro grande autor.

O primeiro reconhecimento do talento de Philip K. Dick.
Lendo o romance de Carrère fiquei sabendo que O Homem do Castelo Alto não é apenas uma ficção na cabeça de PKD: pra ele o livro é real, Hawthorne Abendsen e seu livro O Gafanhoto torna-se pesado é uma descrição da nossa realidade feita no mundo real onde o eixo venceu a guerra, nosso mundo é ficção. O encontro entre o autor e Juliana no final era um encontro que ele esperava ter um dia com alguma leitora ideal cuja leitura de O Homem do Castelo Alto resultasse na mesma epifania que a personagem de seu livro. Isso tudo poderia ser resultado de um segundo casamento infeliz na cabeça de uma pessoa comum mas na cabeça de PKD, nada era comum. Isto é ainda mais destacado quando Carrère aborda o romance Clãs da Lua Alfa onde PKD coloca toda sua experiência com esquizofrenia na caracterização da trama e dos personagens, discutindo o casamento infeliz nas páginas de seu romance. A situação se agrava ainda mais com uma visão que o atrairia pra religião e acabaria entrando nas páginas de Os Três Estigmas de Palmer Eldritch. A visão de um rosto no céu, vigiando tudo que PKD fazia poderia ser sintoma de uma esquizofrenia aguda mas na mente de Philip acabou virando mais um romance onde ele discute a existência de um ser onipresente em um mundo acessado apenas por uma droga especial, a chem-z, distribuída por aquele que dá nome ao livro. O que eu não sabia era que PKD criou todo o pano de fundo da trama a partir de sua relação com a igreja e seu entendimento dos rituais sacros.

Clãs da Lua Alfa é um reflexo da paranoia no autor.
De Palmer Eldritch, Carrère conduz o leitor ao Teste de Turing e como esse conceito afetou PKD a ponto dele criar Androides sonham com Ovelhas Elétricas e misturar isso com a empatia de São Paulo, o caminho do mártir de Mercer e a comunhão final do protagonista do livro com ele. Ubik surge como a comunhão definitiva com o espirito santo, algo que o leitor do romance pode até vislumbrar como metáfora mas que o próprio PKD acabaria vendo mais tarde como uma verdade sagrada. Fluam minhas lágrimas, disse o policial e Um reflexo na escuridão vieram depois quando a fase religiosa e a paranoia cederam espaço às drogas e uma vida de junkie. Uma internação rendeu o laboratório necessário pra criar a trama básica de Reflexo enquanto Fluam minhas lágrimas foi construído ao longo de toda essa fase, principalmente em cima das paranoias do autor com Nixon. A esquizofrenia e paranoia acabam por resultar no final da obra de PKD com sua visão divina em 74, quando ele se deu conta que ele dividia o corpo com Thomas, um cristão do ano 70DC, isso tudo depois da intervenção de uma entidade a quem ele nomeia Valis (Vast Active Living Intelligence System / Vasto Sistema Ativo de Inteligência Vivo em tradução livre). Valis nomeia o primeiro de 3 livros que constituiriam parte de sua exegese (seu texto sagrado, um novo testamento) e, a partir daí, tudo que ele havia escrito, todos os seus romances, nada mais eram que extensões dessa iluminação, ele só havia se dado conta a partir dessa experiência. Do Homem do Castelo Alto a Ubik! Antes de morrer, PKD ainda escreveria A Invasão Divina e A transmigração de Timothy Archer, sem necessariamente concluir sua visão divina mas, ainda assim, deixando sua marca na literatura mundial.

Reconhecimento tardio: Blade Runner.
Um dos romances mais fracos de PKD,
escrito após a experiência divina em 74.
E isso é só uma pincelada superficial do que a biografia de Carrère traz. Nela você ficará sabendo o quanto o I Ching influenciou não apenas a concepção do Homem do Castelo Alto como também a vida de PKD dali em diante. Descobrirá de onde PKD tirou os elementos essenciais de cada obra, ora de suas paranoias, ora de sua experiência religiosa, ora de sua experiência com drogas, ora de sua experiência divina, ora de tudo isso junto! Philip K. Dick foi considerado por Stanislaw Lem o grande autor de ficção científica norte-americana em meio à mediocridade dos de seus pares. E mesmo esse reconhecimento foi visto pela paranoia de PKD como uma ameaça comunista, uma artimanha do inimigo invisível que ele via em cada esquina já que o FBI e a CIA o vigiavam de perto, em sua cabeça. Fica aqui a observação: Lem é o autor de alguns dos melhores romances de ficção científica já escritos, vide grandes clássicos como Solaris ou Cyberiada. Esses momentos da vida de PKD, romantizados aqui por Carrère, conduzem o leitor a um entendimento profundo da mente deste. A biografia de Carrère despertou em mim a vontade de reler toda a obra do autor de tal maneira que o fiz com os livros descritos pelo autor em sua biografia a cada capítulo lido. Essa foi uma das resenhas/leituras mais demoradas do Sentinela em virtude dessas releituras mas garanto que a experiência é gratificante. Se você é fã de Philip K. Dick e gostaria de conhecer melhor a obra do autor ou se você deseja conhecer PKD e quer saber sobre a concepção de suas principais obras, Eu estou vivo e vocês estão mortos é leitura obrigatória. Inédito no Brasil, o livro foi traduzido e editado com o mesmo capricho habitual da Editora Aleph, isso sem esquecer a capa, simplesmente surreal. Os romances Clãs da Lua Alfa e A Invasão Divina foram publicados no Brasil pela Francisco Alves e Melhoramentos, respectivamente. Você pode encontrá-los com alguma facilidade na Estante Virtual. Infelizmente não posso opinar nada sobre A transmigração de Timothy Archer mas fico na torcida pra que a Editora Aleph traga esse título aos fãs brasileiros de PKD, bem como os outros 2 mencionados que hoje só podem ser encontrados em sebos.


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19 de julho de 2016

Mr. Cyberpunk

A primeira temporada de Mr. Robot em DVD pode ser encontrada
no Brasil em sites como o da Livraria Cultura. Você também pode
assistir a todos os episódios em inglês no site docanal USA
A ficção Cyberpunk mudou muito desde o lançamento de Neuromancer de William Gibson em julho de 84. Antes com Blade Runner e Tron, em 82, a semente pro desenvolvimento do gênero estava plantada e logo floresceria em grandes obras como Snow crash de Neal Stephenson e A Máquina Diferencial de Bruce Sterling e William Gibson, ambas já publicadas no Brasil pela Editora Aleph. De lá pra cá, os clássicos do gênero não parecem ter envelhecido tão bem. As cidades não ocupam continentes inteiros, não existem samurais de rua andando por aí, traficantes de dados, realidade virtual ou mesmo acessos pra plugues P2 na base de nossos cérebros. Na verdade, pensando comparativamente, hoje Neuromancer enquanto ficção está quase tão próximo da fantasia e do escapismo quanto Tron se apresentava em 82 ou o RPG Shadowrun na década de 90. A verdade é que, apesar de ser um grande romance, Neuromancer falhou em prever tecnologias como o celular, a internet sem fio e outras como o próprio William Gibson já reconheceu em inúmeras ocasiões. Ficaram de sua obra o estilo, a estética, o flerte com o cinema noir, algo já visto em Blade Runner, a ideia de grandes corporações sufocando o indivíduo e que o controle da própria vida é apenas uma ilusão, elementos esses que tornam o livro o clássico elementar que ele é.

Neuromancer de William Gibson e sua nova capa por
Josan Gonzalez
Ainda assim, o Cyberpunk não perdeu sua importância, apenas diminuiu o ritmo até se reinventar aqui e ali em obras cuja essência ainda traz muito de Neuromancer mas sem o comprometimento com os rumos que a tecnologia atual vem apresentando. Claro que temos exemplos excepcionais como o mangá/anime Ghost in the Shell e filmes como Matrix e Estranhos Prazeres que mantém o alto padrão das ficções Cyberpunk trazendo um novo fôlego ao gênero. O problema é que a cada Matrix nos cinemas, 10 filmes como A Rede traziam uma interpretação pra lá de equivocada da computação e do futuro virtual. Enquanto temos jogos como Deus Ex que trazem o Cyberpunk com questões próximas a da nossa realidade futura, também temos equívocos como Watch_Dogs que prometem uma ficção mais séria mas acabam entregando um escapismo na forma de jogo de ação nos mesmos moldes de um GTA só que com um hacker protagonizando. Nos últimos anos, na literatura, é ainda menor o número de exemplos de obras que dialogam com a realidade tecnológica de hoje e abordam temas realmente relevantes. Cyberstorm de Matthew Mather, também publicado no Brasil pela Editora Aleph, surgiu como uma promessa excepcional mas acabou frustrando os leitores com uma excelente premissa sobre segurança cibernética e a possibilidade real de ciberataques terroristas que infelizmente acaba perdendo muito da sua força no fechamento do livro.

Cyberstorm: uma ideia brilhante,
a execução nem tanto...
Foi enquanto lia Cyberstorm e me fascinava pela premissa do livro que descobri a série Mr. Robot. Na época, a primeira temporada estava estreando no Brasil no canal Space e eu tinha tomado Cyberstorm como a leitura do Sentinela. Resenhar o livro não seria fácil uma vez que a decepção com o final apresentado por Matthew Mather baixou um pouco do meu encanto com a obra, deixando minha expectativa pelo gênero um tanto quanto reduzida. Mr. Robot veio na hora certa pra renovar meu ânimo com o Cyberpunk, revigorando o estilo com uma abordagem mais atual e realista do impacto da tecnologia na sociedade contemporânea. Em Mr. Robot temos indivíduos fora dos padrões, "outcasts" por assim dizer, temos uma corporação que aparenta controlar tudo e todos, um governo fantoche que transmite uma ilusão de ordem e controle e temos tecnologia, muita tecnologia em todos os cantos em um mundo que de tempos em tempos flerta com uma paleta de cores próxima ao neon sugerido em Neuromancer mas sem que se torne algo cafona ou mesmo fantasioso. Temos celulares, wi-fi e nenhuma realidade virtual fantástica, aqui os hackers usam scripts baseados em unix, algo que é usado no mundo real, dentro de um contexto concreto e sem abstrações estéticas.

Elliot, o protagonista
Criada por Sam Esmail depois de 15 anos preparando e pesquisando com especialistas material pra um longa-metragem que virou série, Mr. Robot conta com o talento do ator Rami Malek como o protagonista Elliot Alderson. Elliot se apresenta ao espectador como um hackivista logo no início da série, um hacker com boas intenções por assim dizer, alguém que usa as habilidades em prol de uma causa supostamente nobre. Logo o espectador fica sabendo que no dia-a-dia ele é um especialista em segurança cibernética e tem uma série de distúrbios psicológicos que ele supostamente trata em sessões com sua psicanalista. Elliot dialoga com o espectador o tempo todo de uma forma direta e intimista, algo devidamente discutido mais a frente ainda na 1ª temporada. É assim que o protagonista apresenta seu mundo e os coadjuvantes que nele habitam. E que elenco de apoio! De personagens como seu chefe na All Safe, Gideon (Michel Gill) a sua colega/amiga de infância Angela (Portia Doubleday) ou sua psicanalista Krista (Gloria Reuben), a  traficante Shayla (Frankie Shaw) que fornece a Elliot sua dose mínima de morfina, todos esses personagens tem um papel, profundidade e dramas pessoais apesar de o tempo todo orbitarem a vida de Elliot. Esse é apenas o mundo do protagonista no começo da série já que ao longo do primeiro episódio somos apresentados ao enigmático Mr. Robot, personagem que abrirá novos horizontes ao protagonista e trará novos integrantes à já complexa trama.

O enigmático Mr. Robot confronta Elliot
Evil Corp em suas muitas formas
Mr. Robot, estilosamente interpretado por Chirstian Slater, aborda Elliot com um projeto que visa derrubar a maior corporação do mundo, a E-Corp, convenientemente apelidada por Evil Corp, a princípio uma empresa como a Apple ou o Google mas que logo percebemos ter muitas outras divisões, principalmente no mercado financeiro. A E-Corp podia figurar qualquer romance clássico do Cyberpunk já que controla a vida das pessoas bem como as grandes corporações mostradas nos clássicos. A revolução proposta por Mr. Robot e seu grupo hackvista da f*society conta com Elliot pra atingir seus objetivos e é aí que o hackivismo de Elliot deixa de se limitar a ajudar a comunidade que o cerca pra atingir uma escala global. A partir daí a série assume um crescendo ininterrupto, sem pausas pra que o espectador sinta todo e qualquer choque nas atitudes de Elliot e nas revelações envolvendo os segredos de Mr. Robot e da E-Corp. Contar mais seria entregar uma série de spoilers que estragariam as muitas surpresas que a série traz na sua primeira temporada e acredite, você não vai querer perder nenhuma das surpreendentes reviravoltas que a série apresenta nos seus 10 episódios.
f...society!
O capricho com os detalhes impressiona: cada episódio é nomeado com uma extensão de formato de vídeo como ,avi, .flv e outros, a trilha sonora é vendida em CDs com a arte escrita a mão lembrando os CDs que Elliot cria na série com os dados de quem ele hackeou, mesmo a fonte utilizada na logo do seriado é a mesma usada na icônica Battlestar Galactica em 78. Com elementos que lembram obras complexas como Clube da Luta de Chuck Palahniuk, publicado no Brasil pela Leya, os clássicos essenciais do Cyberpunk e ouso dizer, uma pitada de elementos de Philip K. Dick de obras onde o protagonista questiona sua relação com a realidade como Um reflexo na escuridão e Fluam minhas lágrimas, disse o policial (ambos publicados pela Editora Aleph), Mr. Robot é uma série excepcional. Uma série atual, que não necessariamente se apresenta como futurista mas ilustra ricamente as possibilidades de um futuro imediato e que merece ser assistida. Você pode assistir a primeira temporada no Brasil em DVD, no box lançado pela Universal e acompanhar a 2ª temporada que estreou no último dia 15 no canal Space. O Sentinela recomenda!

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O Sentinela Positrônica é um Blog parceiro da Editora Aleph
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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.