11 de abril de 2016

Eles estão entre nós

*Resenha feita durante a Mostra Sci-Fi no MIS realizada entre 11 e 15 de abril no Museu da Imagem e do Som de Campo Grande, MS.

Poster de Eles vivem
Em 1987 o presidente dos Estados Unidos era Ronald Reagan. A filosofia dele era a de que enquanto os ricos estivessem bem, o povo estaria bem e essa era a propaganda vendida ao povo norte-americano. Todos poderiam, com muito esforço e dedicação, ter o seu lugar ao sol, era uma questão de tempo e esforço. Chocado com essa política ilusória e inspirado por uma HQ lançada em 1986, John Carpenter decidiu escrever, produzir e dirigir o cult Eles vivem em 1987. O filme tem uma pegada assumidamente trash, típica dos filmes B com temáticas envolvendo a paranoia comunista na imagem de invasores alienígenas. A escolha de locações, elenco e produção não podiam ser mais realistas, tudo envolvia mostrar as ruas de uma grande cidade, assoladas pelo desemprego e pobreza nas zonas mais remotas enquanto no centro, apenas a nata desfrutava da boa vida.

Roddy Piper, mais conhecido na época no Brasil como o "gaiteiro" das lutas de WWE, interpreta John Nada. Um homem comum, nenhum galã, apenas um sujeito acostumado a trabalho braçal, um protagonista que poderia ser qualquer um nas ruas, sem estudo ou sofisticação e que logo no começo do filme está migrando pra cidade grande em busca de emprego já que, no interior, as fábricas fecharam e ele não encontra mais oportunidades. John ainda acredita no "american way", ele acha que estão apenas vivendo uma fase ruim mas nem por isso ele se renderia. Tão logo ele chega e logo percebe que ele é só mais um desempregado entre tantos e logo ele acaba numa comunidade que mais se assemelha a uma favela onde ele conhece Frank, interpretado por Keith David. Frank e John são trabalhadores braçais que se encontram na mesma situação, migraram de suas cidades atrás de uma oportunidade melhor no grande centro. Ao contrário de John, Frank acredita que a vida é uma corrida onde a única opção é vencer e é bom que ninguém fique em seu caminho pois ele está disposto a ganhar.

John Nada interpretado por Roddy "o gaiteiro" Piper
Assim como aconteceu em Detroit, Flint e outras tantas cidades em Michigan, várias montadoras fecharam migrando para o México e outros países onde a mão de obra era muito mais barata, ocasionando com isso o empobrecimento dessas comunidades. Robocop de Paul Verhoeven é um filme que aborda esse aspecto em Detroit, Roger e eu de Michael Moore mostra a desolação em Flint após a saída das grandes montadoras. Eles vivem mostra essa desolação de uma forma figurada através de uma grande ironia: e se na verdade os ricos que dominam os meios de produção e a política fossem na verdade alienígenas nos manipulando enquanto preparam terreno pra dominação completa do planeta? O filme sugere que somos condicionados a obedecer, consumir e trabalhar, que o pensamento de pessoas como Frank é saudável, que tudo não passa de uma corrida em que temos que dar o nosso melhor sempre e que o prêmio sempre nos espera no final, ainda que a linha de chegada nunca seja alcançada de fato.

Obedeça!
O filme se desenvolve logo que Nada percebe uma movimentação estranha em uma capela ao lado da favela onde ele mora e lá ele encontra estilosos óculos escuros. Antes mesmo de colocar os óculos, uma força policial expulsa com truculência desnecessária os moradores da favela e com isso, John começa a desconfiar ainda mais da movimentação incomum e dos óculos encontrados na capela. No dia seguinte à ação policial ele decide conferir os óculos e, ao sair nas ruas, descobre que eles permitem que ele enxergue o mundo como ele realmente é: os ricos são alienígenas desformes, as propagandas trazem os dizeres obedeça, consuma e até mesmo o dinheiro traz uma triste mensagem, esse é o seu Deus. A partir daí, Nada decide convencer seu amigo Frank a usar os óculos em uma briga antológica que não duraria mais de 30 segundos mas só entrou no filme porque Roddy Piper e Keith David decidiram brigar de verdade, combinando apenas não atingir os rostos. Carpenter gostou tanto da autenticidade da sequência que decidiu manter o material completo no filme. Logo que Frank coloca os óculos e percebe a trágica realidade da invasão alienígena os dois acabam decidindo tomar uma atitude e acabam por se unir ao grupo que sabe da verdade e oferece resistência à ocupação alienígena. Em um dado momento o espectador percebe que até mesmo humanos cientes da invasão são capazes de se vender aos alienígenas em troca de uma vida de luxo e conforto!

Cuidado com quem você bebe...

Box da Versátil com o filme
Eles vivem é um cult essencial, um filme provocador mascarado de filme B mas com uma temática muito mais profunda. Sua influência na cultura Pop é vista em jogos de computador como Flashback, nas frases do infame Duke Nukem e em tantos outros filmes, HQs e livros. A crítica social vista ao longo das 1h37m de filme é sutil mas pode ser aplicada até mesmo nos dias de hoje onde vemos a diferença gritante na distribuição de riquezas atingir valores até então nunca imaginados pela humanidade. Não seria nada de se estranhar se por acaso descobríssemos em algum momento que na verdade, alienígenas estão entre nós... Você pode encontrar Eles vivem e outros filmes do gênero no box Clássicos do Sci-Fi Vol. 1 da Versátil Home Video. O filme vem com alguns extras e entrevistas além de conter um belo card exclusivo da divulgação do filme em 87 numa coleção altamente recomendável a todo fã da boa ficção científica no cinema.

Segue abaixo a HQ original em inglês que inspirou o filme publicada em 1986 na coletânea Alien Encounters pela editora Eclipse Comics, material encontrado no blog SAP Comics









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O Sentinela Positrônica é um Blog Parceiro da Editora Aleph.
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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.

7 de abril de 2016

Um estudo em laranja

*O texto a seguir contém spoilers sobre a trama uma vez que a proposta aqui é analisar tanto livro como a adaptação cinematográfica.

Edição especial de 50 anos
A capacidade de escolha é algo que define o ser humano. Sem o livre arbítrio, não temos nada além de um individuo sem alma, praticamente uma máquina ou, como diz o livro, uma Laranja Mecânica. Anthony Burgess publicou sua obra-prima em 1962 e teve seu texto adaptado aos cinemas por Stanley Kubrick em 1971. A inspiração pro livro veio na década de 40, durante a grande guerra, quando Burgess sofreu um ato de violência onde sua esposa foi agredida por desertores do exército norte-americano em uma situação similar a exposta na trama do livro. Após um exame médico de rotina resultar num diagnóstico fatal de um câncer no começo dos anos 60, Anthony Burgess se colocou a escrever de forma prolífica pra que pudesse deixar um espólio minimamente razoável pra esposa antes de falecer. A ironia é que o exame se provou incorreto e que Burgess sobreviveu pra ver a consagração de sua obra-prima, a Laranja Mecânica.

Verso da edição de 50 anos
Na época em que o livro foi concebido, a juventude britânica não se organizava em gangues como as da obra mas em rockers, mods e Teddy-Boys, grupos baseados nos gostos musicais e estéticos dos jovens da época. Eles podiam não falar o nadsat, idioma criado por Burgess misturando inglês e russo e utilizado por Alex e seus druguis, mas também tinham suas gírias e expressões características. A juventude violenta dos anos 60 podia pertencer a outros grupos e ter gostos diferentes mas a situação é a mesma que a dos jovens que violentaram a esposa de Burgess na década de 40 ou a do protagonista do livro, Alex, no auge da sua juventude. A edição comemorativa de 50 anos de Laranja Mecânica começa com a citação de Shakespeare em Hamlet que diz que ele desejava que não houvesse nada entre os 16 e 23 anos, que a mocidade devia hibernar nesse período de efervescência emocional. Essa citação dá a tônica da trama do livro: Alex é um jovem que aprecia a violência e música clássica e não tem nenhuma pretensão com o mundo que o cerca além de se divertir às custas dessa sociedade. Inúteis pro mundo ao seu redor, Alex e seus druguis causam apenas dor e sofrimento por onde passam. A diferença entre Alex e seus druguis está na sofisticação do protagonista que associa Beethoven (entre outros músicos no livro, apenas ele no filme) à violência e regozijo. Em um dos ataques de Alex e seus druguis, Alex encontra o autor F. Alexander e sua esposa a quem agride e violenta junto com sua gangue, perante o marido indefeso. Aqui temos Anthony Burgess expondo ao leitor seu trauma do passado de uma forma um tanto quanto lírica já que o autor F. Alexander está escrevendo A Laranja Mecânica quando Alex e seus druguis invadem sua casa.

Edição de 50 anos sem a capa protetora
Laranja Mecânica discute o livre arbítrio em sua essência. Após cometer atos de violência extrema na primeira parte da obra, Alex é preso durante uma de suas incursões noturnas em uma armação provocada pelos seus próprios companheiros que discordavam da postura do seu líder. Depois de um tempo na cadeia, Alex se oferece pra um tratamento revolucionário que propõe devolvê-lo à sociedade devidamente convertido, puro e sem desejos de executar a violência que tanto o diverte. A princípio, o protagonista acredita ser o método Ludovico apenas um caminho fácil pra fora da prisão mas mal sabe ele o que o aguarda após o tratamento. Uma vez terminado o processo, Alex passa a sentir aversão por imagens violentas e por sua amada música clássica já que o protagonista associava violência e música em sua mente deturpada. Agora Alex não tem mais escolha, ele não consegue praticar sua perversidade já que o simples desejo é capaz de provocar nele o asco mais intenso. A música então já não serve mais como escape uma vez que ela sempre esteve associada aos seus atos de violência e também desencadeia o mesmo efeito. Com isso, Alex se torna, nas palavras do autor, uma Laranja Mecânica, um indivíduo sem vontade própria, mecânico e conveniente ao estado que nada espera de Alex além do sorriso conveniente de quem enxerga nele um exemplo da eficiência da máquina pública.

Acabamento interno da edição de 50 anos

O estado é apresentado na trama como uma engrenagem indiferente ao individuo e mais preocupado com a massa. Enquanto o jovem comum estiver estudando, ele não precisa trabalhar, caso contrário, é obrigado a "robotar" nas fábricas como os pais ausentes de Alex. Aí surge a brecha que cria indivíduos como o protagonista e sua gangue. Fica implícita a sugestão de que o governo desse futuro está próximo ao de uma realidade comunista onde todos tem que trabalhar e, com isso, cabe ao estado, ineficiente, educar a juventude na ausência da família. Isso tira dos pais a tarefa de dar os valores que a escola não pode dar aos seus filhos e essa situação é decisiva na criação de jovens como Alex e seus druguis. Poucos são aqueles que não vivem nos flatblocos e tem que trabalhar todos os dias nas fábricas e estes aparentam fazer parte de uma elite intelectual/financeira distante dessa realidade e que acabam se tornando vítimas da violência de Alex e sua gangue. Após o tratamento Ludovico, Alex é liberado de sua pena como um exemplo da eficiência do estado em supostamente resolver o problema da delinquência juvenil.

Ilustração de Dave McKean
Logo que sai da cadeia, Alex acaba surpreendendo seus pais que não esperavam o retorno do filho e colocaram um inquilino em seu quarto. Rejeitado pelos pais, Alex vaga sem destino pela cidade onde a violência que ele causou se volta contra ele, quase como uma ironia do destino, causada pelas mãos daqueles que ele agrediu. O idoso agredido no começo do livro encontra Alex na biblioteca e o agride, o antigo drugui Tosco e o líder da gangue rival, Billy Boy, agora policiais já que o estado considera uma tarefa louvável aos delinquentes de outrora, o levam pra mais uma rodada de agressões em retribuição aos erros do passado. Agora todos aqueles que ele fez sofrer antes do tratamento, devolvem na mesma moeda o que Alex lhes causou. Sem poder revidar pelo tratamento que teve na penitenciária, Alex sofre e chega ao seu limite até o momento que reencontra, por obra do acaso, o autor F. Alexander que o resgata, ouve sua história e, não reconhecendo o agressor do passado, o entrega ao partido de oposição ao governo. É nesse momento que percebemos que tanto aqueles que estão no poder como aqueles que o desejam, enxergam Alex apenas como uma mera engrenagem dentro de um plano maior. Eles usam Alex em seu plano de desmoralizar o governo expondo o fracasso do método Ludovico. Aqui Alex quase encontra seu fim quando tenta o suicídio como forma de escapar de sua agonia. A esperança da oposição era trazer a opinião pública contra a situação com a tragédia de Alex, o que acaba não acontecendo já que ele sobrevive e cai nas mãos novamente do mesmo governo que o manipulou. Agora a proposta é reverter o processo do método Ludovico, desintoxicando Alex do seu antigo tratamento e permitindo a volta do livre arbítrio ao conturbado protagonista.

Ilustração de Angeli
A obra não se propõe a uma solução fácil, tanto que não sugere uma saída pro problema da violência de Alex. Com o tratamento, Alex fica à mercê da sociedade que ele tanto castigou, sem o tratamento, ele fica livre pra voltar ao seu passado violento e sua música clássica. O único elemento que explica em parte Alex é a ausência dos pais em casa mas fora a sugestão de uma justificativa pra violência, nada se oferece como possível solução futura pra um indivíduo como ele. Aqui o filme de Stanley Kubrick se encerra deixando em aberto o futuro de Alex, sugerindo que não há uma solução pro problema e que Alex seguirá o mesmo de aqui em diante. O livro, no entanto, tem mais um capítulo que apresenta um Alex resignado, com uma nova gangue mas sem o menor interesse na violência de outrora. Agora Alex não vê mais com o mesmo interesse ou a excitação de outrora em sair com seus novos amigos e praticar atos de violência. É como acontece com os jovens hoje, você pode chegar na idade que é permitido beber e começar a tomar um porre atrás do outro mas a menos que você seja um alcoólatra irredutível, chega um dia que beber e encarar a posterior ressaca já não tem mais a mesma graça de antes. Aqui a graça da violência já não tem mais o mesmo impacto pra Alex sugerindo que daqui em diante ele seguirá uma vida normal, talvez correta e provavelmente distante da violência de outrora. Isso não é uma solução fácil ou provável, ao meu ver ainda prefiro o final do filme pois acredito que um indivíduo cruel como Alex não conseguiria simplesmente abandonar sua essência agressiva por escolha mas ainda assim não deixa de ser uma opção interessante pro desfecho da narrativa.

Ilustração de Oscar Grillo
O curioso da diferença entre livro e filme é o fato de que a versão norte-americana do livro teve o capítulo final omitido pelo editor e foi justamente essa versão, sem a redenção de Alex, que chegou às mãos do diretor Stanley Kubrick. Curiosamente, Laranja Mecânica teve passagens adaptadas ao pé da letra pelo diretor, ao contrário de outros livros adaptados por Kubrick ao cinema, vide O Iluminado que ganhou várias alterações no original de Stephen King ao ser adaptado aos cinemas pelo diretor. O final do livro, omitido no filme, causa uma estranheza aos que conheceram o filme antes de ler o livro: o final do livro torna-se menos impactante pra alguns, a simpatia com a nova fase do protagonista acaba soando forçada pra muitos. O livro é um clássico essencial à literatura tanto quanto o filme é na história do cinema e, apesar das semelhanças literais entre ambos, tem em seu final um encerramento muito mais otimista pra jornada do protagonista, algo que no final do filme fica mais em aberto. Ironia ou não, ciente ou não do capítulo extra do livro, Kubrick entrega um filme visualmente impactante, cujo uso expressivo de Beethoven na trilha sonora define toda uma estética da violência seja no balé da briga entre os druguis de Alex e a gangue de Billy Boy ou quando Alex decide mostrar quem manda aos seus companheiros na cena emblemática junto ao rio. O espectador do filme acaba maravilhado pelas cenas, ainda que ciente do desgosto que deveria sentir por um protagonista tão vil. O leitor da obra de Burgess por outro lado, acaba com a sensação de confidência de Alex, algo que ao mesmo tempo choca quando é Alex quem comete a violência e causa pena quando Alex se torna uma vítima indefesa após o tratamento.

Ilustração do próprio Anthony Burgess junto com as notas do autor
Por muitos anos o filme foi censurado em vários países e chegou a ser associado a atos de violência executados por gangues juvenis na década de 70, tanto que o próprio Kubrick chegou a ser ameaçado um tempo depois do lançamento do filme, fato que o fez pedir pra retirar o filme dos cinemas na Inglaterra e determinar que assim permanecesse até sua morte, em 99. Não era intenção nem de Burgess ou Kubrick inspirar qualquer tipo de violência e, ainda assim, como em tantas outras obras polêmicas, Laranja Mecânica foi usado como justificativa/desculpa pra atos violentos executados por pessoas desequilibradas. É o preço que se paga por discutir a violência em um nível tão intimista. A nova tradução da Editora Aleph é impecável e merece todos os elogios ao tradutor Fábio Fernandes que se desdobrou pra trazer o nadsat com naturalidade ao leitor brasileiro. As traduções antigas da obra perdiam em muito a qualidade em alguns trechos e essa falha foi totalmente corrigida aqui. A editora ainda entrega duas opções ao leitor, a edição básica e a especial de 50 anos, algo que agrada tanto quem busca por uma opção econômica quanto aos colecionadores. A edição especial de 50 anos do lançamento do livro conta com extras inéditos como artigos escritos pelo próprio autor sobre o livro e o filme, uma entrevista, trechos do manuscrito original e ilustrações de Dave McKean, Angelli e Oscar Grillo, todas exclusivas da edição brasileira, tudo isso numa edição altamente estilizada, com uma produção impecável e mais uma capa icônica da Aleph.


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15 de março de 2016

O Fim da Infância


A nova edição da Editora Aleph
Essa é a primeira vez que começo uma resenha no blog dando ao título do texto o mesmo do livro resenhado. O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke, diz tudo a que a obra veio logo em seu título. A trama traz o fim de um ciclo na história humana quando grandes naves tomam os horizontes das maiores cidades da Terra, justo no momento em que começávamos a dar nossos primeiros passos rumo ao cosmos. O livro começa e encerra descrevendo esse ciclo em uma trama que surpreende, choca e, no final, comove. O título e a obra são igualmente grandiosos, tanto que o filme que Stanley Kubrick pensou em fazer antes de concretizar o projeto do 2001 com Arthur C. Clarke, era uma adaptação de O Fim da Infância. Dada a forma como 2001 e Fim da Infância se encerram, ambos teriam o mesmo impacto épico no espectador/leitor. Cabe a você decidir se por sorte, ou azar, essa adaptação nunca viu a luz do dia. Vários tentaram adaptar O Fim da Infância para o cinema e a TV mas nenhum teve sucesso até o SyFy realizar a proeza em uma minissérie ainda não lançada no Brasil.

Não há muito o que dizer do livro sem entregar muito da trama. Logo que as naves chegam, uma voz se ouve por todas as cidades, em todas as línguas: a voz dos Senhores Supremos, os novos senhores da humanidade. Seu propósito é apenas nos assistir, sem interferir em nossas vidas, contanto que a humanidade obedeça uma única regra: não mais tentar explorar o espaço. Logo no primeiro contato, a humanidade anseia por conhecer os Senhores Supremos mas estes, através de seu líder, Karellen, prometem ao representante das Nações Unidas e da raça humana, Rikki Stormgren, se revelar dentro de 50 anos terrestres, Até lá fome, miséria, guerra e falta de recursos, todos os grandes problemas da humanidade são sistematicamente erradicados pelos Senhores Supremos e uma era de ouro se inicia para a humanidade.

O próprio Arthur C. Clarke no verso da nova edição, provavelmente em foto
de 1953, ano de lançamento do livro.
O Fim da Infância é um dos romances mais incomuns de Clarke. Incomum porque foge da racionalidade quase matemática de seus protagonistas, apelando inclusive pra fenômenos paranormais. Em dado momento da trama, habilidades especiais como telecinese, projeção astral e temas como parapsicologia são livremente abordados, tudo em função do desenvolvimento da narrativa. Algo incomum perto do contexto da obra de Clarke mas sempre muito bem colocado no texto de modo a não deixar dúvidas de que tudo está sendo visto e observado como uma possibilidade científica pelos envolvidos.

Seja pelo choque da revelação da natureza dos Senhores Supremos, sua aparência e seu propósito ou pelo final surpreendente ao mesmo tempo que comovente e um tanto quanto melancólico, O Fim da Infância é um exercício de imaginação fantástico, capaz de nos levar a abrir nossas mentes da mesma forma como quando David Bowman começa sua viagem definitiva dentro do monolito em 2001. O destino da humanidade e dos Senhores Supremos é algo marcante e que definitivamente não sai da cabeça do leitor tão cedo. A edição da Aleph contém extras como o prólogo alterado pelo autor pra situar a trama não no pós-guerra mas durante a Corrida Espacial nos tempos da Guerra Fria, algo que foi desconsiderado no relançamento que optou por manter a trama tal como ela foi publicada originalmente em 1953.

*Considerações sobre a trama e o impacto de O Fim da Infância na Ficção Científica / Com SPOILERS*

A aparência dos Senhores Supremos é o primeiro choque que o livro propicia ao leitor. Considerando a época em que o livro foi escrito (1953) e o fato de que o cristianismo era, e ainda é, algo de difícil discussão, o visual demoníaco de Karellen é algo que choca o leitor. O visual utilizado na adaptação recente do SyFy me lembra o demônio do filme A Lenda, algo assustador e impressionante mas confesso que esperava um visual mais alienígena, menos óbvio, algo mais próximo do visual que Neal Adams pensou na adaptação cancelada dos anos 70 pra TV. De uma forma ou de outra, essa revelação foi um dos momentos mais impactantes pra muitos leitores na década de 50 e que continua surpreendendo até hoje. Confira o visual de Karellen na minissérie do SyFy e no traço de Neal Adams no blog do desenhista. Aproveite pra conhecer também a história da fracassada produção pelo próprio Neal Adams nesse outro link em seu blog.

Filme A Aldeia dos Amaldiçoados
No que se refere ao comportamento das crianças especiais, os "humanos do futuro" em evolução, e dos efeitos que elas sofrem, em vários momentos me lembrei do filme A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Dammed) de Wolf Rilla, lançado em 1960. No filme uma névoa cai sobre um vilarejo inglês e todos os habitantes ficam inconscientes por algumas horas. Ao acordarem, as mulheres estão todas grávidas e as crianças que nascem tem habilidades especiais como telecinese e outras, muito semelhantes às descritas no livro de Arthur C. Clarke. O filme é baseado em um livro, The Midwich Cuckoos de John Wyndham mas que foi lançado 4 anos depois do original de Clarke, em 1957. Logo, tanto o livro de Wyndham como o filme de Rilla podem ter em algum momento ter se inspirado vagamente no romance de Arthur C. Clarke. O filme é um clássico cult e pode ser encontrado no box Obras-primas do Terror da Versátil Home Video e ganhou um remake nos anos 90 pelo cultuado diretor John Carpenter.

A edição anterior, também da Editora Aleph.
Muitos consideram esse o melhor romance de Clarke e eu particularmente considero um dos melhores mas tenho A Cidade e as Estrelas como o melhor. O curioso é que muitos consideram A Cidade um sucessor espiritual do Fim da Infância, até mesmo porque Cidade e as Estrelas foi lançado em 1956, 3 anos após a publicação de O Fim da Infância. Acredito que, caso o final de Fim da Infância fosse diferente e Arthur C. Clarke decidisse manter os últimos humanos isolados em uma cidade sob controle de uma grande inteligência artificial, a cidade seria Diaspar, a mesma de A Cidade e as Estrelas. Quão fantástica seria essa possibilidade e quão impressionante seria a jornada de Alvin pra descobrir o que houve com a humanidade no passado... ele até poderia ser um descendente direto de Jan Rodricks! A Cidade e as Estrelas tem várias passagens em que os mistérios explorados pelo protagonista poderiam muito bem se ligar à trama de O Fim da Infância mas isso é especulação de fã. Se Arthur C. Clarke assim o desejasse, poderia muito bem ter ligado as tramas na época em que refez o início do Fim da Infância, atualizando o contexto da trama pros tempos da Guerra Fria e da Corrida Espacial. O que importa mesmo é que os leitores e fãs de Arthur C. Clarke tem aqui dois de seus melhores livros. A Cidade e as Estrelas você ainda encontra pela Devir, na última edição lançada no país e O Fim da Infância pela Editora Aleph, numa nova edição lançada recentemente.



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23 de fevereiro de 2016

Visita ao Jedi's

*A visita aconteceu antes da alteração do nome da hamburgueria, em dezembro de 2015, durante a realização da Comic Con Experience. Hoje a hamburgueria se chama Jeti's e removeu todas as referências a Star Wars.

O cardápio.
Conheci o Jedi's em 2015 após assistir uma das muitas matérias veiculadas na TV sobre a hamburgueria. Logo que vi, fiquei instigado em conhecer o lugar na primeira oportunidade que tivesse de voltar a São Paulo. Pois em dezembro fui na Comic Con Experience e resolvi aproveitar uma das noites da minha estadia na cidade pra finalmente conhecer o Jedi's. Como bom fã de Star Wars, minhas expectativas pela experiência foram muito altas, nem tanto pelos burgers mas pelo local em si.

Minha primeira frustração foi descobrir que não havia metrô próximo ao Jedi's, no máximo uma linha da CPTM a uma distância razoável do estabelecimento. Em São Paulo o metrô faz toda a diferença na rotina das pessoas, logo, ter que pegar um táxi me passou a impressão que o Jedi's foi aberto mais pensando em turistas que no próprio paulistano. A corrida não foi cara mas, do ponto de vista de quem estava fazendo turismo, tudo bem em gastar um pouco mais pra chegar em um lugar mais distante, só imagino o quão isso pode ser frustrante pra quem é da cidade e se programa conforme o metrô. Tanto é que ao perguntar por amigos paulistanos se já conheceram o Jedi's, nenhum acenou positivamente! Todos alegaram o mesmo problema: a distância e o tempo pra se deslocar até o local. Além de não ter metrô, a hamburgueria fecha às 00h, outro fator complicador pra quem mora em São Paulo. Qual não foi meu espanto ao ouvir do taxista que o local onde a hamburgueria se situa é uma região hoteleira, altamente frequentada por turistas. Isso deixou a impressão que o local é feito pensado pra turistas.

A ambientação. Bacana no primeiro contato.
Ao chegar no Jedi's, logo tive que encarar uma fila pra entrar. Na fila mesmo percebi que todos próximos de mim eram, de fato, turistas, a maioria do RJ. A fila foi outro fator complicador mas é algo normal em São Paulo: se você vai sair na noite paulistana, é bom estar pronto pra encarar filas. Não esperei muito pois estava acompanhado apenas da minha noiva, a Evelise Couto do blog Casa de Um, logo surgiu uma mesa pra 2 e fomos devidamente acomodados. Quem foi em grupo de 4 ou mais pessoas teve que esperar mais tempo por uma mesa. Por sorte optamos por ir no Jedi's na quinta-feira mas ficamos sabendo que no sábado, um grupo de amigos que foi na Comic Con e deixou pra visitar a hamburgueria no dia, esperou uma hora e meia e acabou desistindo.

O Jedi's é bonito à primeira vista, todo decorado com um visual característico de Star Wars. As paredes e a decoração lembram um Star Destroyer mas a impressão que ficou é que o lugar era mais bonito na TV. As mesas, o bar e até os atendentes não traziam nada característico da saga: um fã com olhar mais atento logo percebe que, excetuando as paredes adesivadas e uma decoração mais trabalhada no fundo, temos uma hamburgueria normal no final. Não que eu esperava ser atendido por um Stormtrooper ou pelo Darth Vader mas acredito que um mínimo de zelo com a temática deveria ser aplicado, a galera da Editora Aleph usava um tecido comum improvisando a roupa de um Jedi no estande na Comic Con, nada desfuncional ou caro mas totalmente de acordo com Star Wars. No cardápio mesmo, muitos lanches tinham nomes temáticos, no entanto, Lasanha era Lasanha mesmo, nada de Lasanha Mustafar, Milk Shake era só Milk Shake, nada de Milk Maul ou coisa do tipo. Faltou esse capricho com o tema em várias situações.

O Sentinela e o burger Jedi.
Quanto ao lanche, o burger era bom, razoavelmente bom mas não era nada gourmet. Não sou nenhum especialista mas dava pra perceber que o pão tinha corante artificial, o bacon e o hambúrguer eram comuns e nada ali parecia contar com ingredientes diferenciados, ao contrário do que parecia pela TV. Em Campo Grande, MS, onde resido, temos hamburguerias temáticas com burgers bem mais elaborados e variados que os do Jedi's. Destaco aqui o Burger Rocks onde todos os lanches tem nome temático e são feitos com ingredientes especiais por um preço compatível ao do Jedi's mas com qualidade superior.

A melhor parte da noite foi a apresentação sensacional dos cosplayers. O vídeo abaixo não me deixa mentir, ver Darth Vader, Darth Maul e Stortroopers foi o ponto alto da noite. Nesse instante eu e minha noiva esquecemos todos os pormenores encarados até então e nos divertimos com o espetáculo junto com todos os presentes. O Darth Maul surpreendia pela maquiagem perfeita, provavelmente num trabalho que deve ter demorado um bom tempo pra ficar daquele jeito.


O Sentinela e Darth Vader.
Porém, no entanto, todavia... qual não foi minha decepção ao ir embora quando ouvi de um presente do lado de fora que os cosplayers iam regularmente no estabelecimento, porém não recebiam um centavo pela apresentação. Se isso for verdade, e não confirmei o fato nem com os cosplayers ou com funcionários mas um frequentador regular que dizia conhecer os cosplayers, fica uma decepção muito grande com os responsáveis pelo Jedi's. O que poderia ser um lugar sensacional ficou marcado como um lugar bacana mas nada excepcional, cuja temática parece ter sido pensada em virtude do hype em função do retorno da saga aos cinemas. Os fãs merecem mais e os proprietários poderiam lucrar ainda mais se entregassem algo mais autêntico.



*Considerações "pós mudança de nome"*

Evelise Couto do Casa de Um e o invocado Darth Maul.
A impressão que ficou de que o Jedi's era um lugar que podia ser melhor acabou se confirmando quando no começo de 2016 eles tiveram de mudar o nome da hamburgueria em virtude de direitos sobre a marca Star Wars. Imagino que, se tivessem um cuidado maior desde o princípio com o público e a marca, isso não teria acontecido. Foi decepcionante quando observamos os problemas de autenticidade do lugar e principalmente quando ficamos sabendo de como era a participação dos cosplayers, sem nenhuma remuneração ou compensação pelo trabalho. Se esse fato com os cosplayers era ou não fato, acredito que antes de abrir um estabelecimento temático, o correto seria verificar a possibilidade do uso da marca junto aos atuais proprietários, no caso a Disney. Não é porque o nome da hamburgueria não tinha Star Wars junto que não se constataria aqui um caso de uso indevido da marca.



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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

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16 de fevereiro de 2016

O astro que caiu na Terra


Cartaz do filme.
O Camaleão do Rock, David Bowie, criou e personificou vários personagens nos palcos. Sua carreira na música como Ziggy Stardust, Aladdin Sane e outros tantos personagens acabou levando o astro aos cinemas: primeiro com curta-metragens e breves pontas mas não tardou muito a oferecerem um longa pro astro do Rock protagonizar. E que filme! O Homem que caiu na Terra do diretor Nicolas Roeg é um clássico cult da marca maior. Não apenas por ter o exótico Bowie como protagonista: o filme contou com o produtor Michael Deeley que, anos mais tarde, produziria outro clássico, Blade Runner. O filme é ainda referência em Valis, de Philip K. Dick onde versões fictícias de Philip K. Dick e o amigo autor K. W. Jeter tornam-se obcecados pelo filme "Valis", estrelado pelo rockstar fictício Eric Lampton. Philip K. Dick se baseou na obsessão real do amigo K. W. Jeter por O Homem que caiu na Terra e seu astro, David Bowie.

O Homem que caiu na Terra é um dos primeiros filmes que traz um apelo à consciência humana pelo uso indiscriminado dos recursos naturais. Jim Lovell, Astronauta e Capitão da Apollo 13 que mais tarde foi interpretado por Tom Hanks nos cinemas, aparece no filme interpretando a si próprio em uma cena com Bowie. Essa e outras curiosidades e ousadias tornam o filme uma pérola a ser descoberta (ou redescoberta!) por fãs de David Bowie e a boa ficção científica. Lembro do filme em VHS na década de 90 quando finalmente o descobri em uma locadora. O que mais me marcou era a mensagem e as imagens surreais que o filme transmitia.

Cartaz do filme que acabou
virando capa do álbum Low.
Bowie interpreta aqui um alienígena que "cai" na Terra em busca de recursos naturais. Oculto sob o pseudônimo de Thomas Jerome Newton, o alienígena começa aplicando pequenos golpes pra angariar dinheiro pra seguir seu plano. Logo acompanhamos o personagem encontrando o advogado de patentes Oliver Farnsworth (Buck Henri) e descobrimos que Newton quer juntar dinheiro fundando uma empresa com patentes revolucionárias, obviamente oriundas de seu planeta de origem e muito mais avançadas que qualquer tecnologia humanamente conhecida. Vale notar mais uma referência nessa cena: a música que toca ao fundo é a Suíte dos Planetas, o trecho Mars, Bringer of War & Venus, Bringer of Peace, mais uma menção à origem alienígena de Newton.

Do dia pra noite, Newton e Farnsworth criam a empresa mais lucrativa do mundo, a Appl... (ops!) World Enterprises, e revolucionam o mercado com suas novas patentes tornando as concorrentes obsoletas. Logo o espectador fica sabendo que Newton quer angariar recursos pra construir uma nave pra voltar e salvar sua raça. Sua predileção por água pura e dificuldade na adaptação aos costumes humanos o forçam a permanecer recluso até o momento em que ele decide ir ao local onde "caiu" com sua nave na terra, no Novo México. Lá ele conhece a bela Mari Lou (Candy Clark) que acaba aos poucos apresentando o pior da humanidade ao ingênuo Newton. Aqui o filme tem uma semelhança muito interessante com o clássico de Robert A. Heinlein, Um estranho numa Terra estranha. As semelhanças entre a inocência de ambos os protagonistas é o que move ambas as tramas apesar de aqui a mensagem e o tom não contarem com o humor do texto de Heinlein.

Newton e seu emblemático chapéu...

Newton inspecionando as instalações da World Enterprises.
O Homem que caiu na Terra surpreende por trazer um alienígena literalmente alienado, uma figura desconexa na Terra, um Ícaro que tentou voar até o Sol e caiu por se aproximar demais do seu objetivo. Metáfora essa que reverbera em vários momentos no filme, inclusive com a presença da pintura de Bruegel "Landscape with the Fall of Icarus". O interessante é que o alienígena chega com nobres intenções mas acaba se corrompendo com a humanidade ao longo do filme. Ao invés de mostrar um alienígena tradicional de Hollywood, malvado e sistemático ou bonzinho e salvador, Bowie entrega um alienígena frágil física e mentalmente que acaba se alienando do mundo a sua volta e de sua missão original. O fracasso do personagem nada mais é que uma demonstração de como a humanidade tende a corromper não apenas o meio ambiente mas também o individuo.

A raça de Newton já observava a Terra há muito tempo, eles sabiam que a humanidade era capaz de esgotar seus próprios recursos naturais e isso dá o tom da tragédia da missão do alienígena: resgatar recursos e nos ajudar a gerenciar o que temos antes que acabemos com nosso próprio planeta. Todavia, a ganância das corporações concorrentes e a própria alienação do protagonista acabam por desfazer as nobres intenções. São poucos os flashbacks com o mundo natal de Newton mas todos são contundentes por mostrar o fracasso da missão dele. Talvez se ele obtivesse sucesso em ao menos manter o controle de sua empresa e teríamos um futuro parecido com o mostrado no clássico "Eles vivem!" de John Carpenter onde alienígenas controlam a humanidade sem seu conhecimento através da manipulação da mídia.

A aparência original do alienígena.

Newton, cada vez mais alienado, e suas muitas TVs.
O Homem que caiu na Terra é disparado meu filme favorito de Bowie. É ao meu ver o filme em que o Camaleão do Rock mais se assemelha aos personagens de suas músicas e uma grande ironia/tristeza é saber que o filme não conta com seu talento na composição da trilha sonora por uma questão de direitos autorais. Com uma mensagem trágica e comovente, O Homem que caiu na Terra é um filme ousado, tanto na forma como no conteúdo e merece ser assistido e redescoberto pelo público de hoje, fãs de ficção científica e/ou do grande David Bowie.

O filme é baseado no livro de Walter Tevis que, ainda em 2016, será publicado no Brasil pela Darkside Books. Vale ressaltar que essa resenha foi escrita apenas baseada no filme, o livro eu nunca li mas até onde pesquisei, o autor aprovou a adaptação para os cinemas. Quanto ao filme, resta torcer agora que alguma distribuidora acompanhe a Darkside e decida relançar o filme no Brasil (cof... Versátil... cof!), com certeza ele merece!



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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.

15 de dezembro de 2015

Uma nova trilogia, uma nova geração de fãs

O primeiro poster.
Quando a Disney anunciou a compra da Lucasfilm e, com isso, Star Wars e todas as outras propriedades intelectuais da empresa, logo foi anunciada uma nova trilogia da saga espacial. Os fãs ficaram em polvorosa: os mais animados já se empolgaram com novos filmes, os mais reticentes olharam com desconfiança o anúncio, principalmente depois de terem visto a trilogia prequel fracassar com a maioria dos fãs. Também houve entre os desconfiados, aqueles que não tinham fé na nova trilogia simplesmente porque o criador George Lucas não estaria envolvido. Pra esses, lembro que a Nova Geração de Jornada nas Estrelas / Star Trek e os filmes da série só deslancharam quando Gene Rodenberry foi afastado do comando das produções. Na minha opinião, George Lucas errou muito ao querer comandar tudo sozinho nas prequels e o resultado, todos nós vimos nas telas... Se o filme de 77 se tornou um clássico é porque ele comandou e confiou em uma equipe de talentos e se a saga seguiu um caminho excepcional é porque ele confiou em outros diretores pra dar sequência ao trabalho enquanto ele mantinha a produção dos filmes sob controle.

A trilogia que não deixou saudade...
Então o que esperar de O Despertar da Força? O filme tem hoje sua pré-estreia, no exato momento em que esse post vai ao ar. Desde que comprei meu ingresso, a expectativa só aumentou: a cada trailer, a cada making of, ao visitar o estande do filme na Comic Con Experience, ao ler os livros do novo Universo Expandido, especialmente o Marcas da Guerra de Chuck Wendig, ao jogar horas a fio do novo Battlefront... Tudo isso só aumentou a ansiedade pelo novo filme. Mesmo a trilogia prequel não teve todo esse hype em torno da volta de Star Wars aos cinemas, depois de 16 anos. Nunca me esqueço da sensação estranha que tive ao ver a trilogia prequel começar com Ameaça Fantasma. Lembro de ter saído do cinema em 99 com a sensação que faltava muita história pra contar nos filmes seguintes, que aquele papo de Midi-Clorians e Jar-Jar Binks não enganava nem os fãs mais fervorosos. Saí do cinema com desconfiança e perdi a fé de vez depois que assisti O Ataque dos Clones, um filme que até hoje, nunca revi. Fui assistir A Vingança dos Sith semanas depois da estreia, esperando qualquer coisa que viesse e ao menos não achei de todo ruim o filme, apesar da forma apressada como ele se encerrava. Se houve algum hype por Star Wars nesses anos, com certeza foi dos novos fãs que sequer conheciam a trilogia original. Fiz a experiência com meu sobrinho, depois de saber que ele viu as prequels, sentei com ele pra assistir a trilogia original e qual não foi meu espanto ao ouvir o garoto dizer que os filmes antigos eram muito melhores?

O poster definitivo. Onde está
Luke Skywalker?
Pois eu levo fé na nova trilogia. Primeiro porque temos um bom exemplo no que a Disney fez com a Marvel: depois que assumiram o Marvel Studios, tivemos filmes ainda melhores que os 2 primeiros Homem de Ferro, que Capitão América e Thor e principalmente, O Incrível Hulk (e esquecível!), todos produzidos exclusivamente pela Marvel Studios. Foi depois da compra que vimos Vingadores, Guardiões da Galáxia, o Demolidor do Netflix e outros tantos acertos da Marvel no cinema e na TV. Isso não foi coincidência! O mesmo acredito que valerá pra Lucasfilm: Star Wars está em boas mãos. J. J. Abrams pode não ter feito o melhor Star Trek de todos os tempos mas mostrou pra todo mundo que era capaz de revigorar a franquia nos cinemas pra uma nova geração de fãs, sem se preocupar em agradar os exigentes trekkers. Na época que vi o filme, logo pensei que ele fez um bom trabalho e talvez fizesse um ainda melhor se dirigisse um Star Wars... Ironia do destino e ele assumiu a franquia em 2013 e cá estamos, na estreia mundial do filme. Como eu disse antes, ao meu ver, o erro da trilogia prequel foi justamente centralizar tudo em torno de George Lucas. A nova saga ao que tudo indica está sendo produzida e supervisionada por várias cabeças: Lawrence Kasdam, roteirista da trilogia original, Kathleen Kennedy, a produtora executiva da Lucasfilm desde os tempos da trilogia prequel, o próprio J. J. e claro, a Disney com toda sua equipe.

Os próximos parágrafos podem conter alguns spoilers leves referentes às HQs da Marvel, o jogo Battlefront e o livro Marcas da Guerra, de Chuck Wendig...


A Batalha de Jakku em Battlefront. Quase nenhum spoiler,
apenas um mapa com um impressionante Star Destroyer caído.
O que esperar da trama? Só sei que Jakku é um planeta desolado, no melhor estilo Tatooine, e que é onde Império Galáctico e Nova República provavelmente travaram sua batalha derradeira 29 anos atrás se considerarmos O Despertar da Força. Isso descobri jogando o novo Battlefront. Do Marcas da Guerra, do Chuck Wendig, sei que existem interessados em juntar tudo que for referente a Darth Vader e mesmo dentro do Império, existem aqueles que julgam necessária uma retirada estratégica pra que o próprio Império possa se reinventar, renascer das cinzas e voltar um belo dia, em toda a sua glória. Das HQs, sei que Poe Dameron não é filho de Luke ou Leia e que ele pode sim vir a ser um Jedi já que cresceu próximo às árvores da Força. Essas HQs ainda não saíram no Brasil, é possível acompanhá-las online pela Marvel ou pelo ComiXology. O que isso tem a ver com O Despertar da Força? A trama começa em Jakku ao que tudo indica. Jakku é onde Rey vive e onde ela encontra Finn, Han Solo e Chewbacca pelo visto nos trailers. Poe Dameron provavelmente é um dos mocinhos também, se vai viver ou não ou mesmo se corromper, não sei, sei que ele tem potencial na trama e pode até mesmo vir a ser um Jedi. Sabemos também que Luke sumiu e que, por algum motivo, Leia e Han Solo se afastaram, isso sem dizer que até agora, ninguém sequer mencionou Lando Calrissian...

Meus palpites sobre o que pode vir por aí:

Poe Dameron, Rey e Finn, os novos Jedis?
Acredito que alguma coisa existe entre Rey, Han e Leia. A maioria dos fãs aposta em uma relação entre eles e eu estou com essa maioria. E digo mais, chuto que o misterioso Kylo Ren possa ainda ser o irmão da Rey! Isso seria interessante pra trama de várias formas, no melhor estilo "Luke, eu sou seu pai". Essa reviravolta de gêmeos onde um irmão vai pro lado da luz, outro pro lado sombrio já foi usada inclusive no antigo Universo Expandido, pasmem! Os filhos de Han e Leia viram Jedis mas um dos gêmeos, Jacen Solo Skywalker vira o Darth Caedus e a irmã segue no lado da luz... Será que os produtores vão seguir esse caminho? Parece pouco provável usar algo do antigo Universo Expandido mas eu não duvidaria de uma relação, ao menos entre Han Solo, Leia e Rey, quem sabe com Kylo sendo o irmão malvado... Quanto ao Finn não faço a menor ideia. Duvido que seja filho do Lando ou tenha qualquer relação com ele, acredito que ele siga os passos do personagem que se descobre no meio de algo maior do que ele, no melhor estilo Luke Skywalker, tanto que não esconderam em momento algum que ele vai usar o sabre de luz do Luke no novo filme. Poe Dameron me parece outro mistério... meu palpite é que junto com Rey e Finn ele vai se descobrir um Jedi e que os 3 juntos vão enfrentar os desafios nos próximos filmes da saga. A produção do Episódio VIII soltou um spoiler há algum tempo atrás quando divulgou que o único contrato confirmado pro filme era com o intérprete do personagem de Poe, Oscar Isaac.

O misterioso Kylo Ren.
Sabemos pelos trailers que Kylo não usa a roupa pra sobreviver como Vader fazia e que seu rosto em algum momento será revelado no filme perante Rey e Finn. Se essa cena vai soar como uma revelação no melhor estilo "Luke, eu sou seu pai" não sabemos mas com certeza prevejo muita gente comentando o fato no futuro, provavelmente com memes e tudo mais. Acredito que a Primeira Ordem e os Cavaleiros de Ren encontraram uma nova forma de se viver a Força, diferente do padrão bem/mal, Jedi/Sith. Isso enriqueceria ainda mais o conceito da Força a ponto de fazer acreditar que existem outras interpretações pra esse poder, outras formas de se atingi-lo, isso talvez explique o sabe rudimentar e ao mesmo tempo poderoso de Kylo, provavelmente algo diferente do padrão dos Sith. A Primeira Ordem segue a mesma linha... um novo Império Galáctico mas dessa vez disciplinado e organizado e não entregue aos caprichos dos Moffs, líderes que eram conhecidos por subornar e trapacear pra chegarem ao cargo. Acredito que a Primeira Ordem não vá nem de longe cometer os mesmos erros que o antigo Império, visto o comportamento da Almirante Sloane em Marcas da Guerra.

A Primeira Ordem. Será que os novos troopers
acertam os tiros?
O que pode vir depois? Não consigo imaginar o desfecho pra cada personagem mas seguindo a linha de raciocínio que coloquei antes, sobre novas interpretações pra Força, e extrapolando isso de uma forma interessante que possa desdobrar novas sagas no futuro seria imaginar a Resistência e a Primeira Ordem dividindo a galáxia. Por que? Porque nada mais interessante pro futuro da saga que sair dessa ideia de alternância entre Império e República, Jedis e Siths. Isso perdurou no antigo Universo Expandido em sagas como Knights of the Old Republic e The Old Republic e mesmo depois nas antigas sequências pro Retorno de Jedi. Parece muito mais coerente imaginar uma galáxia dividida pela guerra ao ponto de acordos serem realizados do que simplesmente um lado subjugar o outro. Se a nova trilogia tem algo a mostrar é que provavelmente depois da Batalha de Endor, a guerra em si não terminou, ela apenas cedeu à guerrilha e à desordem, adversários que a Nova República pelo visto falhou em vencer completamente. Logo, acredito que dessa vez não existirá um derrotado e um vencedor onipresente. Digo mais, não consigo nem apostar em quem sai vivo do Despertar da Força! E onde está Luke Skywalker? Aposto que escondido, esperando, tal qual Obi Wan Kenobi em Tatooine. Aguardando o momento certo pra se revelar a uma nova geração de Jedis, esperando um mestre capaz de treiná-los. Leia não parece ter seguido o caminho de uma Chanceler na Nova República, tampouco se tornou uma Jedi como o irmão, logo, aposto que Luke entrou num exílio auto-imposto, até que uma nova ameaça se apresentasse e novos heróis precisassem do seu conhecimento.

A melhor prévia pro que está por vir nos novos filmes da saga, recomendo aqui a leitura!

Enfim, se acertei ou se errei, se o filme é bom ou ruim e se a saga vai nos deixar apreensivos pelos próximos episódios é algo que só vou saber junto com vocês, nas próximas horas... Prometo atualizar o post confirmando meus provavelmente muitos erros e eventuais acertos. Independente disso, vou lembrar o que o Adriano Fromer da Editora Aleph disse num dos vídeos do canal deles no YouTube: "melhor ano pra se gostar de Star Wars". Concordo plenamente! Que a Força esteja com vocês e que a nova trilogia seja apenas o começo!


P.S. pós-filme em 29/12/2015:

1) O filme é bom, muito bom. Traz de volta as mesmas emoções de Uma nova esperança e encanta novos e velhos fãs da saga sem apelar, com algumas inovações aqui e ali mas sem comprometer a tradicional levada dos filmes da saga. Destaque pra Rey e o novo odiado vilão da vez, Kylo Ren, um sucessor muito interessante para Darth Vader. BB-8 rouba a cena e assume o posto de novo dróide adorado pelos fãs. Mais que isso não vou comentar, vou deixar pra depois que o filme sair dos cinemas. É muito justo que os fãs vejam sem spoiler algum, a experiência fica ainda melhor!

2) Quanto aos palpites: acertei em parte. O que errei, errei em parte também, já tenho novos palpites pro próximo mas isso eu deixo pra resenha do filme quando O Despertar da Força sair de cartaz.


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O Sentinela Positrônica é um Blog Parceiro da Editora Aleph.
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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.