1 de junho de 2015

Visitando o Planeta dos Símios

O Planeta dos Macacos de Pierre Boulle é uma sátira de ficção científica. O texto está mais próximo de autores como Voltaire e Cyrano de Bergerac, compatriotas de Boulle, que dos tradicionais escritores da ficção científica como Clarke e Asimov. A obra conta as aventuras de Ulysse Mérou, jornalista francês que viaja junto com o Professor Antelle, seu ajudante Arthur Levain e o simpático chimpanzé Hector rumo à estrela Betelgeuse, a mais brilhante das estrelas do cinturão de Órion ou das Três Marias, como conhecemos aqui no Brasil. A jornada toma ares insólitos quando o protagonista Ulysse se vê tal como Gulliver, perdido em um planeta povoado por macacos inteligentes e humanos primitivos. A ironia da situação traz uma discussão que lembra a jornada do personagem de Jonathan Swift.

Nova edição do clássico de Pierre Boulle

O grande mérito na obra de Pierre Boulle é o choque de se ter uma sociedade cujos papéis não se invertem nos títulos mas nas espécies. Os macacos tem a inteligência mas sua sociedade, por mais que não siga exatamente os mesmos parâmetros, se parece em muito com a nossa. É o choque de se ver o animal que se espera ver em um circo ou em um laboratório ocupando o lugar do burocrata da mesa ao lado, deixando com isso de ser animal enquanto nós, ditos civilizados, ocupamos o papel dos animais. Esse choque é comum em todas as adaptações da obra no cinema, na TV, HQs e games mas aqui ele é discutido de uma forma mais profunda e consistente, sem a influência do medo da guerra nuclear ou mesmo as amarras de se imaginar que o protagonista estava o tempo todo na Terra. Aqui os macacos também se dividem em Gorilas, fortes e políticos, Orangotangos, detentores do conhecimento e costumes, e os Chimpanzés, inteligentes e criativos, porém sempre a serviço dos anteriores.

Nova edição e a antiga, o astronauta Taylor do filme de 68 no meio

O que diferencia livro e filme é o tom menos aventuresco do original, aqui tudo é devidamente documentado pelo narrador e protagonista no pergaminho encontrado pelos viajantes em uma garrafa no começo da narrativa. Vale aqui destacar a grande sacada da Editora Aleph ao distribuir o release do livro em uma garrafa, coisa de quem não apenas editou e imprimiu o livro mas também se deu ao trabalho de ler! Antigamente, os livros de ficção científica eram editados como um livro comum, sem uma preocupação com a arte usada na capa ou quaisquer detalhes maiores. Muitas capas de livros de ficção científica do Clube do Livro por exemplo, saíram com capas com fotos de filmes que nada tinham a ver com a trama dos livros em questão. Fuga no Século 23 (Logan's Run) ilustrou vários romances de ficção da editora vide exemplos como a capa da coletânea A Ameaça da Terra de Robert A. Heinlein.



A jornada descrita no pergaminho se dá rumo à gigante vermelha Betelgeuse em uma expedição planejada pelo Professor Antelle e seu ajudante, Arthur Levain e devidamente documentada pelo jornalista Ulysse Mérou. Ao chegar no destino, o professor decide pousar a escuna no 2º planeta do sistema ao qual eles nomeiam Soror. Logo na descida eles detectam uma civilização industrial na superfície do planeta o que faz o professor achar que a escolha do destino foi um sucesso. Após o pouso, não tarda muito e a expedição descobre os humanos do planeta na figura da nativa Nova, de uma beleza escultural e agilidade admirável, porém, selvagem em sua essência. Nova recebe bem os viajantes em seu mundo mas a cada manifestação deles através da fala ou o uso de instrumentos é percebida com repúdio, como se esse comportamento não fosse natural da parte deles. E assim segue quando eles encontram os demais humanos até o momento em que os macacos finalmente aparecem.

Taylor, Nova, Zira, Cornelius e o jovem Lucius no clássico filme de 1968

Zaius no filme, Zeius no livro
Não existe muita diferença no encontro entre humanos e macacos no livro e no clássico filme de 1968: a expedição também encontra seu fatídico destino em uma caçada que acaba por definir o isolamento de Ulysse, o protagonista. Daí por diante temos a segunda e terceira partes em que o capturado Ulysse é estudado pela sociedade símia e onde ele encontra seus aliados no casal de chimpanzés Zira e Cornelius, e um ferrenho opositor no orangotango Zeius, aqui num papel muito menos relevante que no filme. O grande momento do livro é quando Ulysse descobre a origem da inteligência símia e os motivos para a humanidade estar no estado em que ela se encontra em Soror.

Zaius maneiro
Diferente do filme, aqui não temos uma Terra no futuro nem inconsistências como os macacos falando a mesma língua que os humanos, algo que o perspicaz astronauta Taylor interpretador por Charlton Heston em 68, poderia ter percebido de imediato e não observou em nenhum momento do filme. O destino de Ulysse, no entanto, não deixa de ser no mínimo curioso em relação ao de Taylor, na adaptação para os cinemas de 68.


Observações / Alerta - Spoilers adiante!!

1 - Um dos pontos menos relevantes do livro mas que mais me encantam é a vela que os viajantes que encontram a garrafa com o relato das aventuras de Ulysse. A vela movida pela radiação solar é um conceito que já havia sido especulado nos anos 60 mas só foi ganhar relevância anos mais tarde no meio científico ganhando inclusive espaço em contos de autores como Arthur C. Clarke. Não posso afirmar que foi o primeiro lugar em que o conceito apareceu na ficção científica mas certamente merece respeito, principalmente pela descrição da técnica. As velas solares são um conceito em desenvolvimento hoje em dia e consistem em sondas com velas capazes de captar a energia das estrelas pra se manter em atividade.

2 - A relatividade especial dita que um viajante à velocidade da luz sente o tempo passar mais devagar que alguém num referencial se movendo numa velocidade inferior. No livro é colocado que pra fazer a viagem até Betelgeuse, que fica a 642,5 anos luz da Terra, os astronautas levam 2 anos na velocidade da luz enquanto na Terra se passam 700 anos. Os astronautas levam 1 ano pra acelerar até a velocidade da luz e o outro ano desacelerando até chegar em seu destino, talvez uma forma que o autor pensou de compensar a inércia. O problema é que mesmo na relatividade restrita a velocidade da luz é o maior limite alcançável, mesmo que os viajantes alcançassem esse limite, eles levariam no referencial deles 642,5 anos pra chegar até lá enquanto no referencial de quem ficou na Terra, muito mais tempo teria passado. Pra se ter uma ideia, Proxima Centauri, a Alfa da constelação do Centauro fica a 4,5 anos luz da Terra, logo se viajantes mantivessem do começo ao fim a velocidade da luz, ainda assim levariam mais tempo pra chegar lá que os viajantes do livro. Teria sido mais fácil se Boulle tivesse considerado uma forma de se viajar mais rápido que a luz e mantivesse a noção de que o tempo pra quem se desloca a uma velocidade altíssima passasse mais vagarosamente.


Considerações sobre o livro - Mais spoilers adiante!

Poster do filme de 1968
O tema que mais me encanta no livro de Pierre Boulle é quando o protagonista Ulysse se questiona sobre a real capacidade das sociedades símia e humana em manifestar o conhecimento. O mais interessante é o meio o qual ele faz sua reflexão, a literatura. Nós aprendemos a escrever através da imitação, da mesma forma que os símios aprendem em Soror, por imitação estimulada pelos Orangotangos. A imitação nos forma e define, no entanto, eventualmente alguém cria uma obra única em uma determinada época. Na literatura, a cada Divina Comédia escrita por um Dante, centenas de variações do mesmo tema surgem, imitando a obra original sob outros pontos de vista. Algumas são realmente muito boas e indispensáveis a ponto de acrescentar alguma coisa mas ainda assim, são muito poucas. Se considerarmos o quanto criamos no nosso dia-a-dia e o quanto imitamos outros comportamentos que nos foram ensinados, percebemos o quanto nosso conhecimento e criatividade são limitados. E é isso que acontece em Soror, os valores se invertem mas a imitação é constante, seja qual for a espécie.

Particularmente, minha formação técnica em informática foi o que mais me fez pensar sobre o assunto, na computação, pouco se cria, muito se copia e mesmo quando se cria, o trabalho se dá em cima de aperfeiçoar algo que já existe. Por mais que a teoria comportamental da psicologia com todo o condicionamento e behaviourismo tenham sido descartados em função de teorias mais sofisticadas de estimulação do aprendizado, poucos são os que se desenvolvem a ponto de criar novos conceitos e manifestar a inteligência de uma forma mais elaborada. Basicamente nossa sociedade é composta de uma grande parcela de profissionais que imitam conhecimentos desenvolvidos por muitos enquanto pouquíssimos alcançam a genialidade e mudam o mundo que habitam.

Pra não dizer que tudo são flores no livro, é muito confusa a forma com que a humanidade em Soror regrediu e os símios ascenderam. Não fica claro se ao longo dos 10 mil anos da sociedade símia a humanidade vai aos poucos regredindo ou se ela regride de vez. O momento em que no laboratório do Chimpanzé Helius, companheiro cientista de Cornelius, os humanos começam a falar por ter partes do cérebro estimuladas elétricamente soa confuso. Primeiro porque ali o livro assume a memória como algo que pode ser transmitido geneticamente, algo que nunca foi provado e no máximo se restringe a funções remotas do cérebro, todas definidas pelo instinto. Usar algo não muito claro pra se acessar o registro das memórias do passado humano foi confuso e poderia ter sido resolvido de outra forma. Cornelius poderia ter encontrado gravações conservadas nas escavações antes mencionadas, qualquer tipo diferente de registro poderia ter sido usado. O laboratório de Helius causa um choque interessante em Ulysse mas daí pra justificar o trecho com os humanos de Soror falando como que possuídos por seus ancestrais não foi uma saída muito interessante tanto do ponto de vista científico como narrativo, pareceu uma improvisação. Vale destacar que apesar de um defeito aqui e ali, o próprio autor declarou que se pudesse, teria alterado o texto em alguns trechos que ele próprio não achava suficientemente desenvolvidos.

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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.

8 de abril de 2015

Perdido em Outro Mundo...

Nada melhor que um vídeo de gameplay de um clássico jogo de ficção científica pra inaugurar o canal do Sentinela Positrônica no YouTube! Another World é um jogo desenvolvido por Eric Chahi para a Delphine Software e publicado pela Interplay em 1991. O jogo é uma aventura de ficção científica em plataforma 2D com animações cinemáticas feitas por rotoscopia e gráficos poligonais, algo extremamente inovador pra época. A versão usada no vídeo é a do 20º aniversário do jogo pra Playstation 4, espero que apreciem! Após o vídeo seguem a resenha do jogo e a promoção da semana, espero que gostem!





---------- S O B R E  O  J O G O ----------


A edição de aniversário de 20 anos do jogo pra PS4 foi usada na elaboração do vídeo de gameplay no YouTube e a versão pra PCs foi usada na geração das imagens do post.
A arma e o carro usado na criação das animações do jogo.
Another World é um clássico por definição. O jogo já é épico desde a sua concepção. Primeiro porque foi praticamente todo feito por um único sujeito em uma época em que a indústria de jogos começava dar passos cada vez maiores rumo à grandes empresas de desenvolvedores e/ou publishers com grandes equipes e orçamentos astronômicos. O francês Eric Chahi fez o jogo praticamente todo sozinho, desde a concepção da arte da caixa do jogo às linhas de programação que faziam a animação em rotoscopia funcionar em gráficos poligonais, um grande avanço pra época que o jogo fora concebido. A única ajuda que teve foi de J. F. Freitas que colaborou com a sutil trilha sonora do jogo. Segundo que, por mais que o jogo já esteja caminhando pra seu trigésimo aniversário, ele continua sendo relançado pras mais variadas plataformas, sempre com o cuidado de manter o jogo intacto, apenas com gráficos restaurados.

Metal Hurlant, n.1, a original francesa
A ideia do projeto surgiu da vontade de Chahi desenvolver um jogo diferente dos trabalhos que já vinha fazendo pra outras empresas de jogos. Ele queria fazer algo próprio onde pudesse imprimir toda sua criatividade e ideias e o primeiro conceito pro jogo veio das ilustrações de uma das suas revistas favoritas, a Metal Hurlant, mais conhecida como Heavy Metal nos EUA. A revista traz até hoje contos de fantasia e ficção científica e já influenciou muita gente, de Ridley Scott em Alien e Blade Runner a Tron, clássico da Disney que contou com designs do quadrinhista Moebius, um dos desenhistas regulares da revista. A imagem de um mundo alienígena belo e desolado como os muitos descritos regularmente na revista inspirou a Chahi a pensar no jogo que ia desenvolver. Moebius e Enki Bilal mandam abraços! Podem ter certeza que Metal Hurlant / Heavy Metal vão ser tema de vários posts por aqui no futuro!




Heavy Metal, a "Metal Hurlant" norte-americana. Ela vive! Até hoje continua sendo publicada! Vida longa à Heavy Metal!

O conceito de um jogo que não trouxesse nenhuma informação de pontuação ou status e contasse com uma apresentação sutil da narrativa não nasceu pronta. A abertura do jogo foi desenvolvida junto com o estágio inicial sem um roteiro pronto pro resto do jogo. De acordo com o próprio Eric, o projeto ia se desenvolvendo em função do level design, na medida em que as ideias surgiam, o trabalho fluía até que narrativa e jogabilidade encontrassem um denominador comum. O norte do projeto era a sutileza da narrativa e a experiência intensa e imersiva do jogador sem que nenhuma informação lhe fosse entregue mastigada. O jogo seria difícil, cruel com o jogador até que ele descobrisse o que deveria fazer pra sair de determinada situação.

Ainda vou ver o dia que um físico nuclear vai dirigir uma Ferrari...
Uma das "viagens do jogo".
Another World conta a aventura de um físico nuclear, Lester Knight, que vai parar num mundo alienígena após um acidente durante uma experiência com um acelerador de partículas. O nome do protagonista é algo que ficamos sabendo pela caixa do jogo mas nunca é mencionado durante o gameplay já que no começo da década de 90, caixas e manuais elaborados serviam pra contextualizar o jogador, diferente de hoje onde caixas são cada vez menos elaboradas e manuais vêm apenas em versão digital por mera formalidade, no jogo ele é chamado apenas de "professor" pela inteligência artificial que controla o laboratório. Logo que chega no mundo do jogo, Lester é recebido por um ambiente hostil onde o perigo está por todo lado, seja com os tentáculos na piscina onde se materializa ou nos seres que rastejam no chão e no teto do local, isso sem esquecer a fera que espreita ao fundo e logo acaba atacando o jogador quando ele progride até o final do cenário. Outro ponto a se destacar aqui é que por mais que o jogo seja um plataforma em 2D (com alguns momentos com um falso 3D), o jogador tem a liberdade de explorar os cenários indo pra direita ou esquerda pra cumprir os objetivos como bem entender, ao contrário do tradicional estilo de plataforma da época em que o jogador ia da esquerda pra direita apenas.

Lester Knight operando calmamente o experimento de seu computador, sem saber que em poucos instantes vai parar em outro mundo.

A chegada traumática no mundo alienígena em versão pixelizada,
uma das opções da nova versão do jogo, os gráficos restaurados
podem ser alternados com os gráficos da versão original.
Logo no final da primeira etapa do jogo o protagonista é capturado por uma civilização aparentemente desenvolvida. Ele é aprisionado junto com um alienígena que logo percebemos ser um escravo ou rebelde já que no cenário da prisão percebemos outros como ele trabalhando com picaretas ao fundo. Vale destacar aqui a criatividade de Chahi em comunicar os detalhes desse mundo alienígena em sutilezas como os alienígenas trabalhando no fundo do cenário e o guarda que corre chamar reforços na outra plataforma. Ao longo de todo o jogo o jogador verá cenários e situações em que, paralelamente a suas ações, a trama se desenvolve. Na prisão, assim que o jogador consegue derrubar sua jaula em cima do guarda, seu companheiro alienígena começa a ajuda-lo em sua fuga da cidadela hostil em que foi aprisionado. A parceria entre o jogador e o alien é algo que será desenvolvido até o final do jogo destacando sempre o ponto de vista do jogador que, assim como o personagem, precisa descobrir através das sutilezas do jogo a situação em que se encontra.




Na prisão, ao fundo, os escravos trabalhando enquanto o jogador e seu companheiro tentam fugir da jaula sob o olhar atento dos guardas... um deles vai se dar mal.

Particularmente uma das passagens que mais me encanta no jogo é quando jogador e alienígena escapam da prisão e chegam no elevador. Você pode descer e cumprir seus objetivos mas também pode subir ao topo da torre e ter uma chance de ver a cidadela como um todo. Essa cena dá uma perspectiva em um 3D simulado que comunica tudo que o jogador precisa saber sobre o jogo: ele está literalmente perdido em outro mundo. É um dos poucos momentos onde a trilha incidental de J. F. Freitas aparece e transmite muito mais espanto e encantamento que muitas outras trilhas que insistem em tocar ao longo de todo gameplay de jogos menos criativos. Esse vislumbre da cidade não é obrigatório ao jogador, não é algo que ele precise fazer pra terminar o nível mas é uma ação que engrandece ainda mais a experiência da narrativa.

A cidadela vista do topo da torre da prisão, meu grande momento no jogo.

Não pense que o jogo terá um final feliz ou que o jogador e seu companheiro alien conseguirão no final vencer os “malvados” e libertar seus companheiros com o protagonista voltando pra casa após seus atos de heroísmo e valentia. A trama não é feliz e não se preocupa em consolar o jogador em nenhum instante, seja nos momentos em que ele é separado de seu companheiro ou quando tem que se arrastar pelo cenário como puder pra sobreviver. Os desafios são muitos e todas as falhas do jogador serão punidas com a morte. Serão várias as animações em que o jogador terá de acompanhar resoluto a morte de seu personagem apenas pra poder recomeçar o trecho que ele falhou logo em seguida.

O último desafio do jogo: aparentemente o adversário é importante na sociedade alienígena.

Another World é um clássico da ficção científica porque abraça a possibilidade uma viagem a outro mundo sem o requinte e sofisticação de naves espaciais, o jogo inova ao assumir todas as possibilidades que a física de partículas traz ao mundo real, ainda que de uma forma improvável. A viagem faz mais sentido aqui que muitos outros artifícios usados na ficção. O jogo é um excelente exemplo da mais pura ficção científica porque apresenta um mundo hostil, com uma vida nativa a qual não estamos acostumados e onde os alienígenas falam qualquer coisa, menos um idioma conhecido. Aqui não há um tradutor universal mágico e o jogador não tem tempo pra aprender qualquer forma de expressão mais sofisticada que gestos entre ele e o companheiro alienígena. Sutileza é a palavra de ordem do jogo e isso fica claro quando percebemos que a sociedade alienígena do jogo além de adotar a escravidão também coloca escravos a lutar uns contra os outros como gladiadores em uma arena.

O final.

O jogo tem fãs em toda a indústria gamer, incluindo grandes nomes como Hideo Kojima, criador da série Metal Gear e Snatcher, outro clássico da ficção nos games. Apesar de ter sido criado em uma fase em que a indústria ainda permitia devaneios como um desenvolvedor criando sozinho todo um jogo, Another World permanece intocado até hoje como exemplo de narrativa e gameplay, um jogo que mescla uma trama fantástica com uma jogabilidade desafiadora. O jogo teve relativo sucesso de vendas e crítica mas não sem sofrer censura e mudanças. Pra começar a Interplay exigiu uma trilha sonora mais intensa e menos intimista como a de J. F. Freitas, algo que Chahi manteve oposição até vencer a briga. Nos EUA o jogo foi lançado como Out of This World e teve boa repercussão na versão pra Super Nintendo. Ainda assim, a versão de SNES sofreu com a censura do sangue alienígena nos tentáculos e na cena das termas onde as mulheres alienígenas não tinham mais seu “cofre” a mostra como na versão original do jogo, no console, a nudez das mulheres não era algo destacado na cena.

Out of this World, a versão norte-americana do jogo ganhou um nome diferente e uma capa pavorosa na versão pra consoles, era um bom port mas sofreu com alterações por censura e loadings demorados... e a capa, eu já falei da capa?

Capa de Heart of the Alien pra Sega CD.
O CD tinha o jogo original e a sequência.
Another World chegou a ter um projeto de sequência que seria desenvolvido pelo próprio Chahi e colocaria o jogador na pele do companheiro alienígena, revivendo toda a trama do jogo original mas do ponto de vista do alien. A ideia acabou sendo reaproveitada em parte pela Interplay anos mais tarde quando o jogo ganho uma versão pro Sega CD, a sequência chamada Heart of the Alien coloca o jogador na pele do alienígena que acompanha Lester no jogo anterior mas numa sequência de eventos posterior ao final do jogo original. Heart of the Alien não teve supervisão de Eric Chahi e, apesar de ser um jogo relativamente interessante, não consegue captar o espírito do original ainda que comece com um tom trágico.


Após o final do original, Heart of the Alien continua com
o jogador assumindo o papel do alienígena companheiro de Lester.








Eu conheci Another World como Out of this World em um floppy disk das antigas, daqueles de 5 polegadas que não armazenavam nem 1mB de dados. Na época mal passei do começo do jogo, tudo que consegui foi chegar no topo da torre na prisão mas isso já foi o suficiente pra me fisgar de vez pro mundo do jogo. A parte triste é que eu não era dono do computador e não podia continuar jogando. Só fui terminar o jogo em 92 no meu Super Nintendo quando descobri a fita do jogo pra minha imensa alegria. Apesar de hoje conseguir terminar o jogo em pouco mais de meia hora, na época fiquei várias madrugadas a fio, geralmente noites de sexta e sábado que meus pais deixavam jogar depois de mostrar minhas boas notas, tentando descobrir como vencer os desafios que o jogo apresentava. Meus pais foram muito espertos em me fazer estudar pra poder jogar já que o jogo havia virado uma obsessão pra mim, logo me deixar jogar madrugada adentro era uma forma justa de recompensar meu esforço na época. Se você vai descobrir o jogo agora, recomendo que faça como eu, jogue em silêncio, na madrugada, sozinho de preferência, garanto que a experiência será inesquecível. Em breve falaremos de outro clássico com o mesmo estilo e que foi diretamente influenciado por Another World e outros filmes e livros de ficção científica: Flashback.


A capa original do jogo, arte em óleo feita pelo próprio Eric Chahi.

* Saiba mais sobre o jogo no site oficial, lá você encontra uma biografia da produção do jogo escrita pelo próprio Eric Chahi, o texto está em inglês mas você pode ler traduzido em outros idiomas como Espanhol, Francês ou mesmo Alemão caso conheça os idiomas!

** Compre o jogo pra PCs no Steam aqui e no Good Old Games, ou GOG, aqui!



---------- P R O M O Ç Ã O ----------


Pra não deixar nossos seguidores passando vontade de jogar vamos brindar a versão digital no Steam do jogo pra 2 sortudos. Um deles terá que bolar uma frase que melhor descreva a experiência de se descobrir, de repente, vivendo em outro mundo. A frase mais criativa será escolhida por mim, a Evelise Couto do blog Casa de Um e a jornalista Thaís Pimenta. A frase deve ser postada aqui nos comentários do post e o resultado será divulgado dia 22/04.

O outro ganhador terá que assistir ao vídeo do gameplay do jogo e identificar uma passagem no vídeo, é algo bem simples: pra fazer o gameplay do jogo eu morri pelo menos umas 6 vezes enquanto jogava, todas eu disfarcei na edição do vídeo porém em 2 momentos é inevitável perceber que eu morri entre as edições e o próprio jogo entrega isso, quem descobrir uma dessas duas passagens e entregar nos comentários do vídeo no YouTube ganha no ato o jogo no Steam. Como essa forma de ganhar vai ser mais difícil, caso ninguém descubra até dia 22/04, a segunda melhor frase nos comentários do post aqui no blog vence. Mais difícil que editar as minhas mortes no jogo no vídeo foi propositalmente morrer em dois trechos e editar de modo a alguém poder ganhar essa promoção!!

Quem ganhar as promoções deve ter uma conta no Steam obrigatoriamente pra poder receber o jogo digitalmente em sua conta. Não é necessário ter um PC de outro mundo pra rodar o jogo, podem ficar tranquilos! A promoção vale apenas pro território nacional!


26 de março de 2015

Roteiro à beira da eternidade

*Aviso: o texto a seguir contém spoilers inevitáveis sobre a trama tanto do episódio original como da HQ.

Cidade à beira da eternidade é um dos episódios mais emblemáticos da série clássica de Jornada nas Estrelas. O episódio foi ao ar pela primeira vez em 6 de abril de 1967, durante a 1ª temporada da série. O roteiro foi escrito antes mesmo do seriado entrar em plena produção, logo após a aprovação do 2º episódio piloto da série, Onde nenhum homem jamais esteve. O roteiro foi escrito por ninguém menos que Harlan Ellison, um grande nome da ficção científica em várias mídias. O homem trabalhou em romances, contos, HQs, roteiros de TV e cinema e até colaborou no jogo de computador que adaptou um de seus melhores contos, Não tenho boca e preciso gritar.

O episódio original exibido em 1967

Harlan Ellison
homenageado
como um dos
personagens
da HQ
O roteiro original destacava personagens como a ordenança Rand e o tenente Beckwith, a ordenança acabou dando lugar a Uhura no episódio e o tenente, que era o motivador da trama, acabou substituído pelo Dr. McCoy. Essas alterações se devem mais ao fato de que quando o roteiro foi escrito, os personagens principais ainda não estavam bem definidos e isso só foi se resolver na pré-produção do episódio. Outro problema foi o custo de produção dos cenários, a ideia original do Guardião da Eternidade era muito mais sofisticada, envolvia uma cidade futurística abandonada e não apenas um mas vários guardiões de um portal do tempo bem mais épico que o que foi visto no episódio, tudo isso teve que ser revisto e readaptado à realidade de produção do seriado, algo que acabou acontecendo com vários episódios.



Beckwith, acima ,se diverte enquanto percebe que sua
vítima entrou em mais um "barato nas estrelas"...
Ao menos esse seria o lado bom dos "problemas", não fosse o desentendimento entre Harlan e Gene Roddenberry, o criador da série, com a polêmica sobre o uso de drogas no episódio. No original, o tenente Beckwith era o traficante de uma droga sintética a bordo da Enterprise e usava isso pra chantagear os viciados pra conseguir o que queria dentro da nave. Quando seu esquema é revelado por um dos viciados ele foge e desce pro planeta e com isso acaba sendo ele a cruzar o portal do tempo e não o Dr. McCoy, entorpecido pelo uso acidental da droga sintética destinada ao tratamento do Sr. Sulu como visto no episódio que foi ao ar. A temática das drogas, ainda que breve, era importante na visão de Ellison uma vez que o tenente Beckwith tenta voltar no tempo em benefício próprio mas do ponto de vista de Roddenberry seria um problema com o estúdio e com a ideologia da série. Não que Jornada nas Estrelas tivesse qualquer cunho moralista mas o mote do seriado é um futuro em que a humanidade busca explorar o espaço à procura de conhecimento e não tinha tempo ou interesse pra ter um "barato nas estrelas". Ainda que essa diferença de roteiro esteja presente apenas na primeira edição, ela define o caráter (ou a falta de) do tenente Beckwith.


A HQ contou com capas de J. K. Woodwarde do sensacional
Juan Ortiz que fez posters vintage pra todos
os episódios da série clássica recentemente
De uma forma ou de outra o roteiro original de Ellison teve de ser revisto e as alterações fizeram com que ele nunca mais quisesse ter qualquer envolvimento com Roddenberry ou Jornada nas Estrelas. Isso até ano passado quando a editora IDW resolveu convocar os roteiristas David e Scott Tipton junto com o desenhista J. K. Woodward pra adaptar o roteiro original do episódio, com a supervisão do próprio Harlan Ellison, em uma série de HQs em 5 edições. O resultado foi sensacional tanto pela recepção da crítica como dos fãs da série que puderam finalmente visualizar o roteiro como ele foi pensado originalmente.


A Cidade à beira da Eternidade do título aqui
é muito mais épica que no episódio original







A trama segue relativamente parecida com a do episódio que foi originalmente ao ar: a Enterprise detecta um distúrbio temporal na região do espaço onde fica o planeta do guardião e Kirk decide investigar a causa do fenômeno, o grupo de descida toma conhecimento em solo da situação do alterado tenente Beckwith que acaba ocasionalmente atravessando o portal do tempo. Nessa parte ainda há outra diferença que foi cortada do episódio onde Kirk, Spock e o grupo avançado decidem voltar pra Enterprise apenas pra descobrir ela comandada por um grupo de renegados que em nada tem a ver com a tripulação original. A nave agora é chamada de Condor e sua tripulação lembra mais os homens de Khan em Ceti Alfa V de Jornada nas Estrelas II que qualquer outra tripulação da Federação. É assim que eles percebem que o universo que conheciam foi alterado resultando na descida de Kirk e Spock ao planeta pra acessarem o portal do tempo pra tentar consertar tudo que foi alterado pelo tenente Beckwith em sua incursão ao passado.


Acredito que essa é a parte que mais me incomodou na HQ visto que no episódio que foi ao ar fazia sentido o grupo de descida descobrir que depois que o Dr. McCoy passou pelo portal, nunca mais houve uma Enterprise em órbita do planeta enquanto no roteiro original, a Condor é uma nave idêntica à de Kirk, porém, comandada por um grupo de renegados que nada tinham a ver com a Federação. Ao meu ver, se todo o universo conhecido da Federação mudou com a incursão de Beckwith ao passado, seria incoerente uma Enterprise exatamente idêntica a do universo conhecido por Kirk e sua tripulação. Claro que mesmo esse detalhe não tira o brilho da participação da ordenança Rand que na HQ toma a dianteira da situação comandando a resistência ao grupo de renegados a bordo da Enterprise enquanto Kirk e Spock tentam reverter tudo que aconteceu.

Os Guardiões da Eternidade

A passagem de Kirk e Spock pelo portal é muito mais lírica que o simples pulo exibido no episódio original, na HQ eles tem um longo diálogo com os guardiões que preparam a dupla pro que está por vir. O salto envolve uma viagem muito mais sofisticada que no final acabou sendo editada pra se adaptar aos custos de produção. Outra breve diferença entre a HQ e o episódio original é que na HQ a recepção a Spock no passado é mais complicada uma vez que ele é visto como um chinês e com isso associado aos tantos imigrantes que na visão dos mais radicais levaram os EUA ao período da grande depressão.

Um salto para o passado, aqui muito mais poético e esteticamente impactante

Spock decifra o enigma
Na HQ, os guardiões dão uma dica misteriosa, tipo as charadas vistas em obras como Senhor dos Anéis, sobre o ponto focal no tempo que alterou toda a realidade conhecida. Spock percebe a dica ao notar que uma mulher que discursa sobre um futuro otimista, Edith Keeler, usa uma joia que cabe na descrição enigmática dada pelos guardiões, o resto segue um roteiro parecido com o do episódio. Enquanto Kirk vai notando que ela é uma visionária a frente de seu tempo, Spock tenta restaurar o tricorder pra tentar encontrar o ponto focal em que Beckwith alterou a realidade no futuro, algo que envolve necessariamente Edith Keeler. Essencialmente a trama segue a mesma até o momento em que eles descobrem a fatídica realidade: pra que tudo volte a ser como era, Edith Keeler tem que morrer.


Uma homenagem aos roteiristas, os Tipton Bros!
A vida no passado tem mais elementos na HQ que no episódio, Kirk e Spock trabalham em lugares diferentes pra conseguir recursos pra restaurar as capacidades do tricorder. É mostrado muito mais do passado dos EUA na grande depressão em comparação ao que foi visto no episódio. O romance entre Edith e Kirk segue o mesmo caminho do episódio original enquanto ele e Spock tentam encontrar o tenente Beckwith e descobrir como ele altera o futuro interagindo com Edith Keeler. Nessa parte da investigação destaco uma homenagem do desenhista da HQ, J. K. Woodward, ao autor Harlan Ellison: o indigente que ajuda Kirk e Spock tem as feições do autor, algo que os fãs de Ellison com certeza vão notar emocionados, como eu. Pena que o destino do indigente que ajuda nossos heróis seja o mesmo do indigente que os ajudou no episódio filmado...




A dura realidade sobre o destino de Edith Keeler
A HQ encerra com Kirk e Spock salvando o dia mas não sem um apaixonado Kirk ter que sofrer ao ver Edith Keeler morrer no acidente em que ele teve que ficar parado enquanto Spock impedia Beckwith de agir e salvar Edith, assim como Kirk faz com McCoy no episódio original. A maior diferença entre episódio e HQ no que se refere ao romance é que no texto original, o imbatível Capitão Kirk sai muito mais abalado pela dor da perda de Edith que no episódio que foi ao ar. Na HQ Kirk assiste impassível a tragédia se passando diante dos seus olhos, sem nada poder fazer, num cenário sem vitória como os tantos que ele conseguia tripudiar pra poder vencer, algo que no episódio original acaba encoberto pela atitude do próprio Kirk em deter McCoy. Talvez essa seja a famigerada alteração de roteiro que causou a ira de Ellison com Roddenberry. Se foi ou não, é algo que o próprio Ellison nunca quis revelar.



A desolação de Kirk
Não há veredito que possa ser dado sobre qual seria uma eventual melhor versão da trama. Ambas tem seu encanto e, por mais que o episódio original não possa desfrutar de todo o esplendor da arte da HQ, seus efeitos práticos não comprometem a apresentação do Guardião da Eternidade como uma entidade maior que a vida, acima do bem e do mal. O que me encanta na HQ, além da arte primorosa, é a intensidade do romance entre Kirk e Edith bem como a reação de Spock à conclusão lógica e inevitável da trama: para que o universo que eles conheciam seguisse seu curso, Edith Keeler devia morrer, um dos momentos mais trágicos e emocionantes em Jornada nas Estrelas. Destaco o impacto emocional da tragédia na vida do Capitão Kirk, aqui retratado de uma forma mais humana e menos disciplinada que o estoico capitão apresentado no seriado. Recomendo ambos, episódio e HQ, são clássicos que merecem ser devidamente apreciados.



P.S.: Se estivesse vivo hoje, 26 de março, Leonard Nimoy completaria 84 anos. Ele vive eternamente em nossa memória. Confira nossa homenagem ao ator no blog!


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Você pode comprar a HQ digitalmente no Comixology aqui, a versão utilizada nessa resenha foi a seriada em 5 edições mas a edição única com todos os capítulos também está disponível.

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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.

18 de março de 2015

Sonhos elétricos

Empatia

s.f. Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende etc. 
Psicologia. Identificação de um sujeito com outro; quando alguém, através de suas próprias especulações ou sensações, se coloca no lugar de outra pessoa, tentando entendê-la. 
Competência emocional para depreender o significado de um objeto, geralmente, um quadro, uma pintura etc. 
(Etm. do grego: empátheia; pelo inglês: empathy)

O que define o ser humano? O conhecimento? Suas experiências? Sua capacidade de se relacionar? Essas questões fundamentais são abordadas pela Filosofia e Psicologia desde que o ser humano tenta entender a si próprio e mesmo assim, nenhuma delas tem respostas definitivas. Philip K. Dick toma tais perguntas para si em obras como Andróides sonham com ovelhas elétricas? ao confrontar o leitor com tais questionamentos.

Nova edição da Editora Aleph com extras como a carta de PKD aos produtores de Blade Runner, a última entrevista do autor antes da estréia do filme e um posfácio do tradutor Ronaldo Bressane

O romance se passa em 1992, numa San Francisco tomada por uma poeira radioativa, resultado de uma guerra mundial chamada Terminus. Quem não saiu do planeta e optou por ficar corre o risco de sofrer com deterioração física e mental e com isso virar um dos muitos "cabeças de galinha" que vivem à margem da sociedade por terem uma capacidade mental limitada. As colonias fora da Terra são a única opção para quem deseja uma nova vida, normal e saudável, a emigração é estimulada pelo governo e a mídia e quem ainda não emigrou tem que se submeter a avaliações periódicas para determinar se ainda é um humano normal ou se a poeira radioativa não o transformou em um "cabeça de galinha".

A visão do futuro no filme esteticamente combina com a do livro

Cada emigrante recebe um andróide ao se mudar para uma das colônias, um servo capaz de realizar todas as tarefas que o dono considerar necessárias, em outras palavras, praticamente um escravo. Os andróides são parte essencial do esforço de colonização e a cada geração que passa, são cada vez mais aprimorados e desenvolvidos pelas corporações para se parecerem com os humanos que os possuem. A presença de andróides é considerada ilegal fora das colônias e isso faz com que eles sejam caçados e "aposentados" por caçadores de recompensa ligados às agências de polícia quando decidem fugir para a Terra.

Nesse futuro os animais foram na sua maioria extintos pela poeira radioativa e com isso, ter um animal vivo traz status ao proprietário bem como uma espécie de benção divina pela tarefa de proteger e cuidar do animal. Uma religião surgida no pós-guerra chamada mercerismo define essa relação com a vida animal através da sina de seu profeta, Wilbur Mercer que, através de um dispositivo tecnológico de empatia divide com cada devoto seu calvário. A necessidade de se ter um animal, seja por status ou por apelo religioso, cria um mercado em torno do comércio de animais vivos com direito à cotação de preços e tudo mais que a lei da oferta e procura pode oferecer, inclusive um mercado paralelo de falsificações mecânicas, animais elétricos que simulam perfeitamente um animal vivo.

Quem vai querer ficar na Terra depois da guerra? Venha você também para as colônias fora da Terra! 

Andróides sonham com ovelhas elétricas acompanha um dia na vida de Rick Deckard, um caçador de recompensas da polícia de San Francisco. Deckard é casado e vive uma vida frustrante por saber que sua ovelha é na verdade um animal elétrico e com isso, nem ele ou a esposa acabam conseguindo uma experiência plena de fusão com Mercer. Ele já teve uma ovelha real, no entanto ele a perdeu quando ela teve tétano e desde então foi substituída por uma ovelha elétrica. O sonho de Deckard é ganhar uma recompensa generosa caçando andróides para poder finalmente comprar um animal vivo e poder voltar a se sentir pleno novamente. Acontece que, por ironia do destino, o caçador de recompensas titular do departamento, Dave Holden, é ferido por um andróide e o desejo de Deckard acaba ficando mais próximo assim que ele recebe a tarefa de caçar os outros 6 andróides que Holden deveria aposentar.

A jornada de Deckard é parelha ao cotidiano de J. R. Isidore, um "cabeça de galinha" solitário cuja rotina é trabalhar como motorista de uma clínica veterinária que na verdade é uma oficina de reparos para animais elétricos e no tempo livre tenta experimentar a fusão com Mercer no seu dispositivo de empatia. Seu destino aparentemente é se tornar parte da bagulhificação do mundo, termo dado pelos personagens para o acúmulo de dejetos da Terra devastada numa metáfora interessante ao conceito de entropia. Enquanto Deckard executa suas investigações, o leitor acompanha o drama de Isidore até que as trajetórias de ambos se encontrem. No começo de suas investigações, Deckard conhece a corporação Rosen que criou os novos modelos Nexus 6, os modelos dos andróides que ele foi incumbido de caçar. A ele é dada a tarefa de usar o teste Voight-Kampf em um grupo de indivíduos, um teste psicológico que determina se o sujeito é ou não um andróide através de medidas do tempo de reação nas respostas além da reação física ao estímulo dado por cada pergunta do teste. Se os novos modelos Nexus 6 passarem pelo teste, toda a operação pode ir por água abaixo visto que essa é a única forma de se distinguir humanos de andróides, em um teste de empatia. Aposentar um humano por engano é um dos maiores crimes que se pode cometer portanto o teste tem que ser preciso.

Ela é artificial?

A empatia é um dos temas centrais do livro. Seja na fusão com Mercer onde as pessoas sentem empatia pela dor de seu messias ou nas medições das reações dos submetidos ao teste Voight-Kampf, a empatia é o grande tema aqui. Um andróide não consegue sentir empatia por qualquer coisa, por mais que as corporações tentem o deixar mais parecido com um ser humano, seja com memórias implantadas ou uma capacidade cognitiva maior que a de um ser humano normal. A empatia permite a plena fusão com Mercer e um andróide é incapaz de viver esse tipo de experiência. O teste Voight-Kampf consiste em medir com sensores a reação do sujeito a uma série de perguntas que provocam a sensação de empatia em variadas situações. O interessante é que em um dado momento, o próprio Deckard é confrontado pela sua falta de empatia com sua caça e isso gera um questionamento interessante quando ele é confrontado por outro caçador, ainda mais frio e metódico que ele, chamado Phil Resch.

Sentir pena pela escassez de vida animal no planeta ou pela dor do martírio de Mercer através dos dispositivos de empatia é um comportamento natural a todos os humanos mas que, com o tempo, acaba se tornando algo difícil para um caçador de recompensas. Se eles sentem pena de suas vítimas, seu trabalho se torna ineficaz ou mesmo impossível de ser realizado. Isso faz com que em dado momento Deckard se questione inclusive sobre sua própria natureza humana em um dos pontos altos da trama. Além da presença de Resch também vale destacar o papel de Rachel Rosen, personagem com um papel ambíguo e que acaba afetando o julgamento de Deckard justo pela provocação dos sentimentos de empatia e repulsa em determinadas situações. Sua presença sempre desestabiliza o protagonista colocando ele em situações de conflito pessoal.

Como seria dirigir um hovercar ou um spinner do livro / filme?

Andróides é um clássico de Philip K. Dick que trata o questionamento da realidade humana através da sua relação com a vida ao seu redor, a empatia presente ao longo de toda a trama é algo que não podemos evitar, por pior que as coisas estejam. Andróides não conseguem dividir esse tipo de experiência pois não necessariamente estão vivos, eles podem emular muito bem um ser vivo, agir como um, ter memórias que o definem como um mas é a falta de capacidade de expressar o sentimento de empatia que os entrega. Deckard em sua caçada acaba enfrentando seu calvário pessoal, assim como Mercer, quando ele é confrontado com o papel que desempenha e sua total falta de empatia por aqueles que ele caça. Ao aposentar uma das andróides ele sente um vazio e percebe que sua tarefa não é algo que combina com as lições de Mercer e assim a trama segue até que ele tem uma visão do próprio Mercer que faz com que ele finalmente aceite seu papel, ainda que não entenda.

O mais interessante é que nem mesmo Mercer está ileso na trama de Andróides, o que gera um contraponto interessante ao final do livro. Após a grande revelação do programa do Buster Gente Fina (outro arco interessante na trama) ficam pendentes várias questões. Quem realmente foi Mercer? De onde surgiu o mercerismo, qual seu propósito? Essas perguntas o autor deixa em aberto para o leitor especular enquanto a pergunta do título, os sonhos de gente como Deckard ou os andróides, ganha sua resposta ao longo da trama.

Ridley Scott e Philip K. Dick na época da pré-produção da adaptação

P.S.: Decidi não discutir os paralelos entre livro e a adaptação para os cinemas Blade Runner para abordar o tema em outros posts, um sobre o filme, outro com os paralelos entre ambos.

P.S.2: Recomendo intensamente a leitura do posfácio da nova edição da Editora Aleph escrito pelo tradutor do livro, Ronaldo Bressane. O texto esclarece muito sobre os temas da obra bem como traz uma interessante análise da relação entre livro e filme.

P.S.3: Considero a carta de Philip K. Dick aos produtores do filme o Manifesto Cyberpunk. Assim como a carta de Truffaut à Hitchcock foi o Manifesto que originou a Nouvelle Vague, o texto de PKD destaca a necessidade de mudança da ficção científica tradicional, ainda enraizada em suas viagens fantásticas e alegorias visionárias, com a qual ele próprio já destoava, para algo novo, contemporâneo, algo que o filme parecia trazer em seu cerne e que anos mais tarde se provou a grande influência do movimento Cyberpunk.


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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

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10 de março de 2015

O Vórtice Fantástico

O Vórtice Fantástico é um projeto cujo objetivo é criar grupos de leitura e discussão de obras fantásticas, sejam elas de ficção científica, fantasia ou terror, em todo o território nacional. Idealizado por Raquel Moritz e Bruna Miranda, o Vórtice tem grupos se reunindo regularmente em várias capitais do país, uma delas sendo a capital onde resido, Campo Grande, MS. A Raquel é responsável pelo blog Pipoca Musical e atualmente cuida do Vórtice em Blumenau, a Bruna tem um vlog com resenhas literárias e outras dicas e cuida do grupo em São Paulo, capital, essas foram as duas primeiras cidades onde o projeto começou e acabou se espalhando. É graças ao esforço delas que o Vórtice ganhou várias cidades Brasil afora e vem ganhando cada vez mais adeptos aos grupos de leitura já estabelecidos. Se você deseja se inscrever, basta enviar um email pra vorticefantastico@gmail.com informando sua cidade que o grupo encaminha o formulário pra participar do grupo na sua região, e caso não exista um, você será orientado a como criar um grupo. Não custa nada participar e a recompensa é sensacional, garanto!

Tem como não curtir no facebook?

O que mais me encanta na iniciativa é a possibilidade de discutir livros, filmes ou até mesmo séries com um grupo de pessoas com os mesmos gostos e interesses que o meu. Eu sempre quis ter um grupo assim mas infelizmente nunca encontrei pessoas dispostas a ir além do "um dia desses" ou mesmo que saíssem do tradicional "se tivesse tempo", isso quando não esbarrava no "eu já li isso, pra que discutir de novo". Acredito que quando temos algo que gostamos, compartilhar isso, ainda que no caso fazendo uma nova leitura, é uma das coisas mais recompensadoras que podemos fazer.

De mesquinho já bastam os Ferengis!
Indicar um clássico já lido pra quem nunca leu ou assistiu a um filme/seriado já visto é algo que recompensa pelo simples fato de que você pode conquistar ali mais um fã de algo que você também gosta e com isso, mais alguém interessado no assunto em comum. Tornar ficção científica ou qualquer que seja o tema em algo hermético, restrito apenas a um grupo de pessoas, é apenas limitar a própria paixão em função de algo mesquinho como ciúme ou mesmo sintoma de um ego inflado.

Dar essa chance de participar de algo maior pode inclusive ser uma forma de descobrir novos horizontes, novas leituras. Cedo ou tarde, por mais que você tenha lido ou visto muita coisa, algo novo aparece e aí você pode acabar se encantando com uma nova descoberta, uma nova leitura que você não conhecia, um novo autor, um filme recém lançado e assim por diante.

Esse é o mérito do Vórtice Fantástico, essa é a recompensa que tive desde que comecei a fazer parte do grupo no final de 2014. A primeira leitura que tivemos foi 2001: Uma Odisséia no Espaço de Arthur C. Clarke, clássico que figura entre meus favoritos e, não por acaso, foi indicação minha pra primeira leitura do grupo. Minha maior alegria foi perceber depois da primeira reunião após a leitura do livro que o grupo se encantou com a obra e ganhou um interesse que hoje percebo que é cada vez maior pela literatura de ficção científica. Pra muitos ali era o primeiro contato com o gênero e a reação foi extremamente positiva. Fomentar esse tipo de descoberta meus caros, não tem preço.

Vida Longa e Próspera
Na última reunião do grupo, dia 7 de março passado, nos reunimos na livraria Leparole pra fazer uma singela homenagem ao falecido Leonard Nimoy, o eterno Sr. Spock de Jornada nas Estrelas. Fiz a sugestão na reunião da semana anterior logo que a notícia do falecimento correu na mídia e sugeri ao grupo assistir alguns episódios da série clássica de Jornada nas Estrelas como forma de conhecer a série e o personagem e com isso homenagear esse grande mito da cultura pop.

Escolhi o clássico Cidade à beira da eternidade da primeira temporada da série e tomei a liberdade de transmitir o episódio no formato original, sem a recente remasterização com novos efeitos feita pela CBS, pra que o grupo conhecesse a série como ela foi transmitida em sua época. O episódio é especial por vários motivos, o principal deles ter sido escrito pelo genial Harlan Ellison, um dos grandes autores de ficção científica do século XX, e também por ser um episódio favorito de muitos fãs da série. Em Cidade à beira da eternidade Spock deve orientar seu capitão a tomar uma das decisões mais difíceis de sua vida. O motivo da escolha desse episódio é ele mostrar a racionalidade e frieza de Spock em todo seu esplendor, principalmente no momento em que ele demonstra a Kirk o motivo pelo qual a alteração no futuro deles foi feita, ainda que isso custe muito caro pro seu capitão.

Evite entrar em portais, sejam eles quais for

O outro episódio que acompanhamos no encontro foi Tempo de Loucura, este escrito por outro grande autor de ficção científica, Theodore Sturgeon. No episódio pela primeira vez os fãs conhecem o planeta natal de Spock, Vulcano, e podem ter uma ideia de sua estética, do ambiente e da cultura vulcanas. Escolhi esse episódio por ele expandir a mitologia do personagem Spock enquanto mostra a versatilidade de Leonard Nimoy em entregar ao público um Spock ainda mais profundo, com conflitos até então inesperados a todos os fãs da série.

Muita pesquisa e pouca diversão fazem de Spock um sujeito infeliz...
Muita pesquisa e pouca diversão...

Vocês não imaginam qual foi minha surpresa no final do encontro ao perceber que o grupo gostou de assistir os episódios ao ponto de querer conhecer mais Jornada nas Estrelas e pedir mais recomendações minhas sobre a série. Jornada nas Estrelas, por mais que o tempo passe, resiste e não apenas pelo apelo junto a sua base de fãs como eu, Jornada segue viva e bem porque traz boas histórias, personagens fortes e uma temática atemporal, basta a pessoa que não conhece dar uma chance pra ela acabar encantada com a proposta da série. Não por acaso ela está prestes a completar 50 anos e ainda ganhar reprises e relançamentos em DVD e BluRay, sem esquecer os novos filmes e uma possível nova série a caminho.

É essa satisfação que me levou a apostar no Vórtice Fantástico, a empolgar e reler os clássicos que li há 15, 20 anos atrás e falar de filmes e séries que assisto desde a infância. Meus pais fizeram isso um dia comigo, meus professores também. Sou grato a todos eles e espero estar repetindo isso com meus novos amigos do Vórtice. Sou grato à Raquel e à Bruna por tomarem a iniciativa que muito marmanjo que se diz entendido no assunto não tomou, não fossem elas e sua curiosidade e não teríamos uma nova geração de leitores de clássicos como Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Robert A. Heinlein, Philip K. Dick e outros tantos. Pra elas o meu mais sincero parabéns, seguido de um grande obrigado. Graças a elas conheci o Samuka, o Danilo, o Renan, o Bruno, a Carolina, a Daniella e todos os outros que minha memória já preguiçosa me fez esquecer ou quaisquer outros que ainda virei a conhecer. É graças a vocês que desenterrei meus arquivos das antigas, cacei minhas colaborações do tempo da internet discada, meus pitacos acadêmicos e comecei o projeto do Sentinela.

A galera reunida após a reunião
Fica aqui portanto, meu muito obrigado a todos os envolvidos! Vida longa e próspera ao Vórtice Fantástico!

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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

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