19 de julho de 2016

Mr. Cyberpunk

A primeira temporada de Mr. Robot em DVD pode ser encontrada
no Brasil em sites como o da Livraria Cultura. Você também pode
assistir a todos os episódios em inglês no site docanal USA
A ficção Cyberpunk mudou muito desde o lançamento de Neuromancer de William Gibson em julho de 84. Antes com Blade Runner e Tron, em 82, a semente pro desenvolvimento do gênero estava plantada e logo floresceria em grandes obras como Snow crash de Neal Stephenson e A Máquina Diferencial de Bruce Sterling e William Gibson, ambas já publicadas no Brasil pela Editora Aleph. De lá pra cá, os clássicos do gênero não parecem ter envelhecido tão bem. As cidades não ocupam continentes inteiros, não existem samurais de rua andando por aí, traficantes de dados, realidade virtual ou mesmo acessos pra plugues P2 na base de nossos cérebros. Na verdade, pensando comparativamente, hoje Neuromancer enquanto ficção está quase tão próximo da fantasia e do escapismo quanto Tron se apresentava em 82 ou o RPG Shadowrun na década de 90. A verdade é que, apesar de ser um grande romance, Neuromancer falhou em prever tecnologias como o celular, a internet sem fio e outras como o próprio William Gibson já reconheceu em inúmeras ocasiões. Ficaram de sua obra o estilo, a estética, o flerte com o cinema noir, algo já visto em Blade Runner, a ideia de grandes corporações sufocando o indivíduo e que o controle da própria vida é apenas uma ilusão, elementos esses que tornam o livro o clássico elementar que ele é.

Neuromancer de William Gibson e sua nova capa por
Josan Gonzalez
Ainda assim, o Cyberpunk não perdeu sua importância, apenas diminuiu o ritmo até se reinventar aqui e ali em obras cuja essência ainda traz muito de Neuromancer mas sem o comprometimento com os rumos que a tecnologia atual vem apresentando. Claro que temos exemplos excepcionais como o mangá/anime Ghost in the Shell e filmes como Matrix e Estranhos Prazeres que mantém o alto padrão das ficções Cyberpunk trazendo um novo fôlego ao gênero. O problema é que a cada Matrix nos cinemas, 10 filmes como A Rede traziam uma interpretação pra lá de equivocada da computação e do futuro virtual. Enquanto temos jogos como Deus Ex que trazem o Cyberpunk com questões próximas a da nossa realidade futura, também temos equívocos como Watch_Dogs que prometem uma ficção mais séria mas acabam entregando um escapismo na forma de jogo de ação nos mesmos moldes de um GTA só que com um hacker protagonizando. Nos últimos anos, na literatura, é ainda menor o número de exemplos de obras que dialogam com a realidade tecnológica de hoje e abordam temas realmente relevantes. Cyberstorm de Matthew Mather, também publicado no Brasil pela Editora Aleph, surgiu como uma promessa excepcional mas acabou frustrando os leitores com uma excelente premissa sobre segurança cibernética e a possibilidade real de ciberataques terroristas que infelizmente acaba perdendo muito da sua força no fechamento do livro.

Cyberstorm: uma ideia brilhante,
a execução nem tanto...
Foi enquanto lia Cyberstorm e me fascinava pela premissa do livro que descobri a série Mr. Robot. Na época, a primeira temporada estava estreando no Brasil no canal Space e eu tinha tomado Cyberstorm como a leitura do Sentinela. Resenhar o livro não seria fácil uma vez que a decepção com o final apresentado por Matthew Mather baixou um pouco do meu encanto com a obra, deixando minha expectativa pelo gênero um tanto quanto reduzida. Mr. Robot veio na hora certa pra renovar meu ânimo com o Cyberpunk, revigorando o estilo com uma abordagem mais atual e realista do impacto da tecnologia na sociedade contemporânea. Em Mr. Robot temos indivíduos fora dos padrões, "outcasts" por assim dizer, temos uma corporação que aparenta controlar tudo e todos, um governo fantoche que transmite uma ilusão de ordem e controle e temos tecnologia, muita tecnologia em todos os cantos em um mundo que de tempos em tempos flerta com uma paleta de cores próxima ao neon sugerido em Neuromancer mas sem que se torne algo cafona ou mesmo fantasioso. Temos celulares, wi-fi e nenhuma realidade virtual fantástica, aqui os hackers usam scripts baseados em unix, algo que é usado no mundo real, dentro de um contexto concreto e sem abstrações estéticas.

Elliot, o protagonista
Criada por Sam Esmail depois de 15 anos preparando e pesquisando com especialistas material pra um longa-metragem que virou série, Mr. Robot conta com o talento do ator Rami Malek como o protagonista Elliot Alderson. Elliot se apresenta ao espectador como um hackivista logo no início da série, um hacker com boas intenções por assim dizer, alguém que usa as habilidades em prol de uma causa supostamente nobre. Logo o espectador fica sabendo que no dia-a-dia ele é um especialista em segurança cibernética e tem uma série de distúrbios psicológicos que ele supostamente trata em sessões com sua psicanalista. Elliot dialoga com o espectador o tempo todo de uma forma direta e intimista, algo devidamente discutido mais a frente ainda na 1ª temporada. É assim que o protagonista apresenta seu mundo e os coadjuvantes que nele habitam. E que elenco de apoio! De personagens como seu chefe na All Safe, Gideon (Michel Gill) a sua colega/amiga de infância Angela (Portia Doubleday) ou sua psicanalista Krista (Gloria Reuben), a  traficante Shayla (Frankie Shaw) que fornece a Elliot sua dose mínima de morfina, todos esses personagens tem um papel, profundidade e dramas pessoais apesar de o tempo todo orbitarem a vida de Elliot. Esse é apenas o mundo do protagonista no começo da série já que ao longo do primeiro episódio somos apresentados ao enigmático Mr. Robot, personagem que abrirá novos horizontes ao protagonista e trará novos integrantes à já complexa trama.

O enigmático Mr. Robot confronta Elliot
Evil Corp em suas muitas formas
Mr. Robot, estilosamente interpretado por Chirstian Slater, aborda Elliot com um projeto que visa derrubar a maior corporação do mundo, a E-Corp, convenientemente apelidada por Evil Corp, a princípio uma empresa como a Apple ou o Google mas que logo percebemos ter muitas outras divisões, principalmente no mercado financeiro. A E-Corp podia figurar qualquer romance clássico do Cyberpunk já que controla a vida das pessoas bem como as grandes corporações mostradas nos clássicos. A revolução proposta por Mr. Robot e seu grupo hackvista da f*society conta com Elliot pra atingir seus objetivos e é aí que o hackivismo de Elliot deixa de se limitar a ajudar a comunidade que o cerca pra atingir uma escala global. A partir daí a série assume um crescendo ininterrupto, sem pausas pra que o espectador sinta todo e qualquer choque nas atitudes de Elliot e nas revelações envolvendo os segredos de Mr. Robot e da E-Corp. Contar mais seria entregar uma série de spoilers que estragariam as muitas surpresas que a série traz na sua primeira temporada e acredite, você não vai querer perder nenhuma das surpreendentes reviravoltas que a série apresenta nos seus 10 episódios.
f...society!
O capricho com os detalhes impressiona: cada episódio é nomeado com uma extensão de formato de vídeo como ,avi, .flv e outros, a trilha sonora é vendida em CDs com a arte escrita a mão lembrando os CDs que Elliot cria na série com os dados de quem ele hackeou, mesmo a fonte utilizada na logo do seriado é a mesma usada na icônica Battlestar Galactica em 78. Com elementos que lembram obras complexas como Clube da Luta de Chuck Palahniuk, publicado no Brasil pela Leya, os clássicos essenciais do Cyberpunk e ouso dizer, uma pitada de elementos de Philip K. Dick de obras onde o protagonista questiona sua relação com a realidade como Um reflexo na escuridão e Fluam minhas lágrimas, disse o policial (ambos publicados pela Editora Aleph), Mr. Robot é uma série excepcional. Uma série atual, que não necessariamente se apresenta como futurista mas ilustra ricamente as possibilidades de um futuro imediato e que merece ser assistida. Você pode assistir a primeira temporada no Brasil em DVD, no box lançado pela Universal e acompanhar a 2ª temporada que estreou no último dia 15 no canal Space. O Sentinela recomenda!

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O Sentinela Positrônica é um Blog parceiro da Editora Aleph
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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.

13 de julho de 2016

Bonito de se ver, Bonito de se ler...

Os livros doados ao público, bastava ir na árvore e pegar o seu
Bonito seria mais uma linda cidade turística como outras tantas Brasil afora no último fim de semana, não fosse um evento especial na cidade: a Feira Literária de Bonito, FLIB ou mesmo FLIBonito como alguns gostaram de chamar. Eu já conhecia Bonito de outras primaveras mas nunca havia comparecido a um evento na cidade: ora faltavam oportunidades, ora sobravam desculpas. Mesmo a primeira edição da FLIB em 2015 eu acabei perdendo graças a um plantão de última hora. Acompanhei a Evelise Couto da Contexto Mídia, autora do Blog Casa de Um na cobertura do evento. Aceitei o convite do organizador Carlos Porto, que muito atenciosamente possibilitou minha participação. Na organização do evento, conheci a Maria Adélia Menegazzo, curadora do evento e alguém que desde sempre me lembram que eu já deveria ter tido um dedo de prosa. Aqui expresso minha gratidão ao Carlos por ter concretizado essa prosa com a Maria Adélia, uma guia pro futuro do Sentinela no mundo das palavras.

As apresentações teatrais cativaram o público das escolas
A segunda edição da FLIB manteve o protocolo e, assim como homenageou em 2015 o poeta local Manoel de Barros, em 2016 foi a vez do poeta Lobivar Matos, um desconhecido pra muitos mesmo aqui no Mato Grosso do Sul mas que vem tendo uma releitura/redescoberta de sua obra graças ao trabalho de pesquisadores das universidades locais. A poesia de Lobivar fala da regionalidade, de seu amor pela cidade de Corumbá e traz carregados traços de sua infância pantaneira. Lobivar morreu jovem, aos 32 anos e sem o devido reconhecimento pela sua obra, os livros de poemas Areôtorare: poemas boróros e Sarobá que em 2016 completa 80 anos de publicação.
O Sentinela divide a palestra com o Prof. Edson Silva

No evento tive a oportunidade de reencontrar meu professor dos tempos da faculdade de Jornalismo, o Prof. Edson Silva, a quem tive o privilégio de acompanhar em uma apresentação onde discorremos sobre a pesquisa jornalística, construção de narrativas e os blogs literários como ferramenta. Meu trabalho com o prof. Edson nos tempos de Jornalismo remete às pesquisas feitas sobre a história da cidade de Campo Grande e sua arquitetura, seu patrimônio material e imaterial como a Ferrovia e as construções do centro histórico da cidade. Algo que se destacou durante o evento foi a relação com as escolas e as crianças, o trabalho com os jovens leitores. Professores de escolas locais e da região levavam seus alunos pra participar de apresentações teatrais e culturais em espaços rotativos com várias atividades pra criançada desenvolver o gosto pela leitura, uma iniciativa pra lá de louvável.

O Sentinela, pego no flagra admirando o livro infantil
Zebrosinha, de Bruna Beber
Daniel Munduruku e suas histórias no Espaço Sarobá
No palco conheci o trabalho do Beirão, um músico nordestino radicado em Brasília que trabalha a literatura de cordel em suas canções e encantou a primeira noite do evento. No Espaço Sarobá contemplei a poesia da Bruna Beber no Dedo de Prosa com os autores. No mesmo espaço se apresentaram o amigo e esctitor Ewerton Carvalho com o seu O Primeiro Vampiro, o também amigo e contista Henrique Pimenta com o seu Ele adora a desgraça azul e seus contos. Lá conheci Luciano Serafim e suas histórias, sua paixão por Manara, Crepax e outros tantos. Luciano trouxe com sua Editora Arrebol, uma forma diferente e sustentável de publicação, valorizando acima de tudo o talento do autor. Nas palestras também conheci o autor Daniel Munduruku, autor indígena que na programação aparecia como autor de livros infantis mas na apresentação surpreendeu a todos com suas palavras sinceras sobre a questão indígena no Brasil. Daniel também discorreu sobre a fonte de suas narrativas, a oralidade dos velhos dos povos onde ele circula. É dessa oralidade que saiu o livro A caveira-rolante, a mulher-lesma e outras histórias indígenas de assustar, da Global Editora, livro que me interessou por trazer o terror nos contos que os velhos contam.

A criançada lendo: um dos pontos fortes da FLIB
Outra autora que me surpreendeu e eu desconhecia era Ana Paula Maia que criou um personagens chamados Edgar Wilson e Bronco Gil, situou suas histórias em ambientes inusitados como um matadouro e falou de um mundo onde a delicadeza feminina não entra e os personagens não necessariamente têm de evoluir do ponto A ou B. Estou terminando De Gados e Homens entre ontem e hoje, enquanto escrevo esse post, de tão inesperada que foi a descoberta/leitura. Fiquei com impressão parecida da que tive ao assistir Amarelo Manga de Cláudio Assis, principalmente pelas sequências no açougue e no matadouro.

Julio Maria e seu Nada Será Como Antes
Na FLIB também conheci Julio Maria, autor da biografia mais recente sobre Elis Regina que comoveu a todos com a desconstrução da eterna Pimentinha em sua apresentação. Foi comovente ouvir do autor o relato dos filhos de Elis na leitura das passagens do livro. Resta agora a vontade de devorar cada página de Nada Será Como Antes e desconstruir com Julio o mito que foi, e ainda é, Elis Regina. Em um mercado onde biografias são proibidas pela auto-censura de personagens que querem uma imagem intocada, ainda que incoerente pra posteridade, Julio parece ter encontrado o equilíbrio perfeito entre a desconstrução do mito e o relato sincero, tudo que esperamos de uma boa biografia.

Pedro Gabriel e seus livros, um exemplo de inspiração
Outra apresentação que me cativou foi a do Pedro Gabriel e seus livros, Eu me chamo Antônio e Segundo - Eu me chamo Antônio. Em sua conversa com o público ele mostrou que às vezes, algo simples como se expressar em um guardanapo pode nos levar a algo maior, a sair da rotina diária à qual nos deixamos prender. Pedro tem um talento excepcional, ele cria e traça sua obra, desenha e escreve, compondo tudo de um jeito simples e direto. Se ainda não caiu no gosto dos acadêmicos é porque esses ainda falham em admirar algo que veio da selva cibernética e que eles ainda têm medo de explorar. Espero que sua obra continue inspirada e criativa como sua presença foi aos seus fãs.

De resto, posso dizer que a peça intimista de Paulo Betti e o show de Tetê Espíndola vieram pra coroar um evento muito especial, uma feira que começava todos os dias com o chamado sempre especial do artista Ruberval Cunha que encantava a todos com um bom dia sempre especial através de seus versos declamados em improvisos sempre encantadores. A FLIB de 2016 foi inesquecível e eu mal vejo a hora pra participar da próxima, dessa vez com meus contos! Aqui vai meu muito obrigado a todos os envolvidos e a recomendação aos leitores que participem nas próximas!

P.S.: As fotos do post são de autoria da fotógrafa Elis Regina, algo no mínimo surreal quando se tem no evento o biógrafo da Elis Regina! Um inception inesperado por todos!

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5 de julho de 2016

Um livro à beira da eternidade

Nos episódios anteriores...

Data Estelar 3134.0 / 1ª temporada da Série Clássica, episódio 28, "Cidade à beira da Eternidade". Exibido originalmente em 6 de abril de 1967.

Kirk, Spock e o Guardião da Eternidade
A Enterprise encontra um fenômeno temporal próximo de um planeta desconhecido enquanto o Dr. McCoy acidentalmente injeta em si próprio uma droga experimental que acaba tirando ele do seu juízo normal, levando o médico da nave a se transportar para a superfície do planeta. Kirk e Spock seguem o alterado McCoy e encontram um portal consciente que se auto-denomina O Guardião da Eternidade e ficam sabendo que o Dr. McCoy passou por ali e acabou parando no passado do planeta Terra, alterando com sua presença todo o futuro da Federação. Com isso, resta a Kirk e Spock passar pelo portal numa arriscada tentativa de salvar o alterado companheiro da Enterprise e descobrir o ponto focal onde todo o futuro deles foi alterado.

Data Estelar 5943.7 / 3ª temporada da Série Clássica, episódio 78, "Todos os nossos ontens". Exibido originalmente em 14 de março de 1969.

Spock e Zarabeth
A Enterprise é enviada ao planeta Sarpeidon numa missão de resgate da população local uma vez que a estrela local está prestes a virar uma nova, erradicando toda a vida no sistema. No planeta, Kirk, Spock e McCoy encontram apenas uma biblioteca computadorizada e um indivíduo chamado Atoz que diz que não há necessidade de se preocupar com os habitantes de Sarpeidon já que todos se transportaram a diferentes períodos no passado do planeta. Um acidente acontece e Kirk passa pelo dispositivo temporal, parando no passado no planeta. Spock e McCoy acessam o mesmo dispositivo na tentativa de socorrer o capitão e acabam parando no período glacial de Sarpeidon, 5 mil anos no passado onde conhecem Zarabeth. No passado, Spock acaba regredindo ao estado emocional dos Vulcanos de 5 mil anos atrás, antes destes aderirem à lógica pura e acaba cedendo aos seus instintos primitivos em um breve relacionamento com Zarabeth.

No episódio de hoje: O Portal do Tempo! Data estelar: 6324.09 / Publicado originalmente em agosto de 1983 por Ann C. Crispin

A nova edição!
Spock e McCoy são interrompidos durante uma inusitada partida de xadrez tradicional por uma tripulante que, estudando os registros do passado do agora extinto planeta Sarpeidon, descobre uma pintura numa caverna estranhamente familiar: pintura esta que registra algo muito próximo a um Vulcano onde supostamente não deveria haver nenhum! Spock conclui que sua estadia em Sarpeidon e seu breve romance com Zarabeth acabou gerando um descendente seu e que, como todo Vulcano tem um elo muito forte com sua família, deve resgatar Zarabeth e seu filho, nem que pra isso tenha que violar a quarentena do planeta onde está situado O Guardião da Eternidade! Kirk e McCoy decidem desobedecer as regras da Frota Estelar uma vez mais pra ajudar na missão do amigo Vulcano, mantendo a tradição de sempre quebrar as regras quando o que está em jogo envolve a amizade entre eles. Ao regressar pelo Portal do Tempo, eles acabam conhecendo Zar, o filho de Spock numa aventura épica que ainda conta com uma grande ameaça, os temíveis Romulanos!

A edição original da própria Aleph, lançada em 91.
Almanaque escrito por Salvador Nogueira e
Susana Alexandria, também publicado pela Aleph
Falar sobre O Portal do Tempo é falar sobre um episódio de uma série inesquecível. A trama de A. C. Crispin é leve, ágil, bem humorada e divertida como todo bom episódio da série clássica de Star Trek / Jornada nas Estrelas deve ser. Tenha em mente a leitura como se estivesse acompanhando um episódio padrão da série com pouco menos de uma hora de duração: o ritmo é frenético e as pausas dramáticas aparecem em todos os momentos chave, bem como a montagem dos episódios clássicos da série de TV. A nova edição conta com a introdução de Salvador Nogueira, editor do site Trek Brasilis, co-autor do Almanque Jornada nas Estrelas, publicado pela própria Editora Aleph (hoje fora de catálogo), e uma das maiores referências Trekkers no mundo. No prólogo, Nogueira conta dentre várias coisas, como a fã Ann C. Crispin foi de espectadora da série clássica a autora do universo expandido trekker depois de assistir o episódio Todos os nossos ontens em uma convenção no final da década de 70, uma história simplesmente surpreendente. A. C. Crispin viria a se tornar mais uma grande autora em um meio infelizmente ainda dominado por mais autores que autoras.
Quando a edição de 91 foi publicada, Jornada nas Estrelas
estava no auge da popularidade no Brasil e no mundo
O livro é muito bem editado, a tradução segue os termos e especificações da série e ainda temos um glossário com os termos, locais e personagens inerentes à trama. A capa... essa me preocupava já que quando conversei com o Adriano Frommer, o Almirante da Frota da Aleph, sobre a nova edição de Portal do Tempo, ele disse que seriam produzidas novas capas pra essa e as novas edições de Star Trek pela Aleph. O motivo da minha preocupação é que a capa original foi feita por ninguém menos que Boris Vallejo, um grande artista da fantasia e ficção, velho conhecido dos fãs da arte de mestres como Frank Frazetta, Luis Royo e outros tantos que criaram artes icônicas com personagens como Conan e John Carter. A tarefa de igualar uma capa tão icônica feita por um artista tão consagrado seria tarefa no mínimo improvável... e eles conseguiram fazer algo tão bom quanto, a ponto de marcar como uma das melhores capas de Star Trek dos últimos anos. Ao mesmo tempo que a nova arte evoca o estilo visual da nova linha temporal dos últimos filmes, referencia também as feições de Leonard Nimoy, o eterno Spock, e o visual da Enterprise clássica da série original, bem como o próprio Portal do Tempo e o planeta Gateway. Não bastava voltar a publicar Star Trek no Brasil, 25 anos depois de ter lançado a primeira leva de livros da série. Algo novo tinha que ser feito e isso foi marcado pela nova capa produzida pela Aleph. Parabéns pela ousadia! Eu jamais imaginaria que ficaria tão bom!

A nova arte de capa em toda sua grandeza.

Que esse seja o marco de uma nova geração de fãs brasileiros dessa que é uma das maiores séries já feitas. Eu, o Sentinela, sou suspeito demais pra falar de Star Trek, ainda mais quando se trata da Série Clássica, da Nova Geração e da Deep Space 9 ou mesmo de Voyager ou Enterprise. Vamos torcer pra Aleph seguir com os livros da série e que tanto o novo filme e a nova série marquem o grande retorno que Star Trek merece ter com o grande público! Vida longe e próspera a essa nova empreitada editorial da Editora Aleph!

P.S.: Recomendo a leitura desse artigo belamente escrito pela Bárbara Prince, Dróide Editorial da Editora Aleph, sobre O Portal do Tempo e os livros de Star Trek. Ela dá excelentes dicas sobre como entrar de cabeça nos livros da série!

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7 de junho de 2016

A Procura de Boas Ideias

Na literatura e nas artes, de um modo geral, de tempos em tempos, boas ideias aparecem. Elas podem surgir baseadas em referências literárias/artísticas e surpreender o leitor/espectador que esperava algo definido dentro dessas referências ou mesmo inovar, trazendo algo diferente em cima dessas mesmas referências, subvertendo padrões e ainda assim, mantendo as influências. Raros são os momentos em que algo novo e autêntico surge e reinventa toda uma série de conceitos literários/artísticos. Foi assim com a ficção científica quando abandonou de vez o fantástico ao deixar no passado o mito do Frankenstein e abraçou Asimov e suas leis da robótica. Foi assim quando Philip K. Dick começou a divagar a existência e a própria racionalidade humana em seus textos, o que fez Ursula K. Le Guin reconhecer ele como o Borges da ficção científica.

Amorquia de André Carneiro, merece ser reeditado!
Como Pierre Boulle bem colocou em uma passagem do seu Planeta dos Macacos quando o protagonista questiona a evolução símia e a humana, raros são os momentos em que ideias novas aparecem, na maior parte do tempo é tudo uma grande releitura, as artes sendo o melhor exemplo. A cada grande ideia temos toda uma geração criando e desenvolvendo em cima dessa mesma ideia, a maioria apenas imitando o original, poucos desenvolvendo algo relevante e menos ainda entregando novas possibilidades em cima dessa mesma ideia.

Roberto de Sousa Causo, um dos
poucos autores nacionais de ficção
científica em atividade.
Com isso em mente, sou um dos muitos admiradores da ficção científica que lamenta a escassa produção nacional do gênero atualmente. Salvo alguns títulos publicados pela Devir e a Draco, é muito difícil encontrar material nacional que não seja publicado de forma independente ou em periódicos digitais como o Somnium do Clube de Leitores de Ficção Científica, disponibilizado gratuitamente em formato digital, e, mesmo assim, a maioria está mais próxima do fantástico ou das Space Operas e Cyberpunks (e variações) que pra ficção científica dita "hard", classificação que eu já disse discordar no primeiro post do blog.

Estamos carentes de mais produção e de autores como André Carneiro e Jorge Luis Calife que deixaram sua marca na ficção científica mundial e essa escassez é algo que vejo com certa tristeza. Temos bons autores, claro, o Roberto de Sousa Causo é um excelente exemplo de autor nacional de ficção em atividade mas precisamos mais. Nada contra Space Operas e o Cyberpunk mas o excesso nunca faz bem, ainda mais quando nossa ficção tende a se prender ao fantástico, o que oferece o perigo de regredir aos tempos em que ficção científica se limitava a ser um mero escapismo, tal como um Flash Gordon, Buck Rogers, John Carter e outros tantos heróis genéricos. Isso não é ruim, entretém na maioria das vezes mas limita se restrito a isso.

A Procura de Vida Inteligente, de Victor Allenspach
Pois qual foi minha surpresa ao conhecer o livro A Procura de Vida Inteligente de Victor Allenspach. O autor entrou em contato comigo pelo facebook me oferecendo o livro pra resenhar no Blog. Ao ler sobre o livro em outros lugares, tive a impressão superficial de que se tratava de uma grande referência ao trabalho de Douglas Adams, algo que até referi ao postar sobre as futuras leituras do Sentinela nas redes sociais. Meu receio confesso era de ter um livro regular em mãos e ter uma leitura quando muito correta de mais um autor referenciando os próprios gostos dentro da ficção científica. Isso não é demérito, pelo contrário, mas coincide com a observação que fiz sobre Planeta dos Macacos, uma ideia repetida não se destaca, se torna apenas mais uma referência.


Logo que recebi o livro, percebi o empenho de Victor que, além de ter cuidado do projeto gráfico do livro, bancou a edição e impressão do livro, o que já rende grandes elogios dado o esforço dele próprio em levar sua obra aos leitores, algo louvável nos tempos em que tudo é digital e ainda mais especial se considerarmos que o papel utilizado na impressão do livro era reciclado. Minha impressão era que, se não fosse surpreendido pela escrita, com certeza a apresentação, o carinho e o cuidado do Victor já mereciam elogios. Ele foi autor, editor, revisor, designer gráfico, social media, assessor de imprensa e até agente literário, tudo isso pra produzir seu primeiro livro: A Procura de Vida Inteligente.

Projeto gráfico do próprio autor!
A Procura de Vida Inteligente conta a história do personagem de nome Boris em capítulos que podem ser entendidos como contos onde a robótica e a exploração espacial elaboram o pano de fundo geral da trama. Cada conto entrega uma passagem da existência de Boris e dos personagens que o cercam, alguns sendo mencionados entre um capítulo e outro. Sua relação com o mundo, as máquinas e os humanos é o que desenvolve cada conto/capítulo, com exceção ao capítulo Mula desobediente onde o desafortunado Ekta acaba apenas ouvindo falar de Boris sem saber de quem se trata. Destacar mais sobre os contos é arriscado pois qualquer spoiler aqui pode prejudicar a surpresa que a trama entrega em seu desfecho. Posso dizer que a (des)construção do protagonista Boris é o ponto forte da narrativa e vai manter o leitor interessado até o desfecho, ainda que as dúvidas se acumulem ao longo da leitura. Tenha paciência, o final vale o esforço!

Foi com muita alegria que, ao terminar a leitura, percebi estar diante de um autor com grande potencial. A Procura de Vida Inteligente tem várias referências aos clássicos e pode ser enquadrado tranquilamente como ficção científica "hard", por assim dizer, mas sem jamais se limitar a repetir mecanicamente os clássicos. Victor referencia em seu livro Douglas Adams e seu humor, Asimov e sua robótica e ainda traz muito dos questionamentos de Philip K. Dick em sua essência. Não pude deixar de notar a semelhança entre a curiosidade de Boris e a do protagonista do conto A Formiga Elétrica de PKD. No que se refere ao humor eu diria até estar próximo do Robert A. Heinlein com seu humor seco que até do irônico Douglas Adams. Algumas das ironias que vi nos capítulos trazem muito desse humor mais próximo da realidade, mais concreto e menos "viajado" que o humor de Douglas Adams. Claro que isso é apenas uma impressão, posso dizer tranquilamente que o Victor encontrou um meio termo bastante interessante entre os dois pra situar seu estilo. Em alguns momentos, quando banca o narrador onipresente, Victor lembra Adams mas, quando se expressa por meio de seus personagens, ele está muito mais próximo de Heinlein em obras como A Estrela Oculta.

Dedicatória do autor antes da fama!
A trama não-linear acaba destacando ainda mais a criatividade da construção da narrativa de A Procura de Vida Inteligente. Os fãs mais experientes de autores como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov bem sabem que a narrativa de ambos é objetiva, técnica e sem floreios ou sofisticações. Eles nunca fizeram cerimônia em admitir que compensam a falta de técnica com suas ideias em tramas sempre reflexivas e densas, algo que sempre entregou a origem pulp destes dois grandes monstros da ficção científica. Sua ficção sempre tratou da reação humana a tecnologia e ao futuro e nas mais variadas situações que o futuro pode entregar a nossa espécie. Em seu livro, Victor também não se entrega a floreios literários mas constrói uma narrativa sólida, não-linear, que toma o leitor aos poucos e surpreende pela reflexão final, algo que poucos fazem na ficção em geral. Muitos tentam mas poucos entregam algo que realmente surpreende ao mesmo tempo que é construído de maneira coesa. Pra ser sincero, confesso que reli várias passagens a procura dos infames erros ou inconsistências na trama e ainda assim, falhei miseravelmente em encontrar. Cientificamente falando, Victor não tomou nenhuma liberdade criativa que violasse quaisquer regras da natureza e da ciência, ao menos nenhuma que qualquer outro autor já não tenha quebrado. Claro que não sou um editor/revisor e acredito que com alguma revisão e edição especializada, A Procura de Vida Inteligente pode almejar vôos ainda mais ambiciosos. Basta cair no gosto do público e de uma editora capaz de trabalhar o material pra tirar o melhor (cof, Aleph, cof, cof...). Como esse é o primeiro livro publicado do autor, fica também a expectativa de que o segundo seja no mínimo tão bom quanto este, outra barreira que aguardo ansioso pra ver Victor quebrar.

Recomendo a todos a leitura de A Procura de Vida Inteligente de Victor Allenspach, sejam leitores de longa data da ficção científica e de outros gêneros. Temos aqui um autor capaz, dedicado e honesto cuja referência aos clássicos nunca se limita à mera repetição e que entrega uma obra excepcionalmente criativa dentro de um contexto em que muito já foi dito mas que, como muitos gostam de pensar, ainda tem muito a se dizer.


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15 de abril de 2016

Procurando espelhos

*Resenha feita durante a Mostra Sci-Fi no MIS realizada entre 11 e 15 de abril no Museu da Imagem e do Som de Campo Grande, MS.


Poster do filme
Solaris foi escrito pelo escritor polonês Stanislaw Lem em 61 e foi adaptado aos cinemas em duas ocasiões: em 72 por Andrei Tarkóvski e 2002 por Steven Soderbergh. Do ponto de vista de quem leu o livro, existem poucas diferenças, mas essenciais, entre o romance e o filme de Tarkóvski. Quanto ao filme de Soderbergh, as únicas semelhanças estão nos nomes dos personagens, do planeta e em alguns pontos da trama, a versão norte-americana limitou-se a reduzir o romance e o filme de 72 a um romance fantástico. Pessoalmente considero o livro de Lem e o filme de Tarkóvski duas metades de uma mesma laranja excepcional. No livro de Stanislaw Lem, a discussão está em torno da comunicação, do contato entre espécies totalmente diferentes, da ausência do entendimento e até mesmo da falta de disposição no entendimento. No filme de Andrei Tarkóvski, bem como em toda sua filmografia, a discussão foca no que o ser humano realmente procura, um espelho: no caso de Solaris, o que procuramos no espaço nada mais é que um reflexo de nós mesmos e nossas próprias experiências. 

O protagonista, Kris Kelvin (Donatas Banionis)
O filme começa diferente do livro com o protagonista, o psiquiatra Kris Kelvin (Donatas Banionis), revisitando a casa onde cresceu pra se despedir do pai (Nikolai Grinko), que provavelmente não verá mais vivo novamente quando voltar da missão. Kelvin é encarregado de descobrir o que aconteceu na estação em órbita de Solaris, o motivo da tripulação ter cortado o contato com a Terra e se a missão deve ou não continuar, sua avaliação psicológica da tripulação é crucial pra avaliação do controle da missão. Logo somos apresentados ao piloto Henri Berton (Vladislav Dvorzhetsky), um amigo do pai de Kelvin que já esteve em Solaris e teve seu relatório desacreditado pela comissão de avaliação do controle da missão. Em seu relatório, Berton afirma que viu anomalias peculiares na superfície do planeta sendo uma delas uma criança descomunal, muito parecida com o filho de um dos tripulantes. No entanto, o vídeo da missão mostra apenas nuvens esparsas por sobre o oceano em Solaris, desacreditando completamente o relatório de Berton que insiste no que viu perante a comissão. Tudo que Berton quer é que Kelvin lhe dê um voto de confiança e avalie a situação com cuidado. Logo que a vista se encerra, Kelvin se despede de seu passado na Terra e logo o espectador é conduzido pra sua chegada à estação em órbita de Solaris.

A estação em órbita de Solaris

Solaris é uma anomalia cósmica. Um planeta que orbita duas estrelas, uma gigante vermelha e uma estrela azul, e que sofre tensões gravitacionais extremas, composto basicamente por um oceano, um lugar que não deveria existir no papel. A tensão gravitacional simplesmente deveria destruir o planeta e no entanto ele parece regular sua órbita, temperatura, pressão... tudo. Esse é o grande mistério do estudo da "solarística", como é mencionado no filme, no entanto, pra surpresa do protagonista e do expectador, existe muito mais pra se descobrir em Solaris. Logo que aporta na estação, Kelvin percebe uma estação abandonada, desolada e sem manutenção. Os outros tripulantes, Dr. Snaut (Jüri Järvet) e Dr. Sartorius (Anatoli Solonitsyn), ignoram a chegada de Kelvin e ele logo fica sabendo que seu amigo, o Dr. Gibarian (Sos Sargsyan), se matou em sua cabine. Kelvin logo acessa uma mensagem do amigo em sua cabine alertando que Solaris está além da compreensão humana. Ao se recolher aos seus aposentos, reflexivo, Kelvin mal sabe o que lhe espera ao despertar... A aparição de Hari (Natalya Bondarchuk), sua falecida esposa, é o primeiro sinal de que Solaris tem muito mais a esconder.

O oceano

Poster italiano, note a menção a 2001,
sugerindo Solaris como resposta
soviética ao clássico de Kubrick
O expectador é conduzido pela trama pelos olhos do protagonista que, na medida em que avança em sua relação com Solaris e os tripulantes da estação, vai se distanciando cada vez mais de seu propósito original e refletindo o que o Dr. Snaut fala em um determinado momento do filme, que nós não procuramos descobrir os mistérios do cosmos quando nos aventuramos pelas estrelas, nós procuramos espelhos. Tal reflexão dá a tônica do filme e pode muito bem ser evidenciada nas muitas ficções que encontramos, vide Jornada nas Estrelas / Star Trek que representa o alienígena da semana muitas vezes como um humano, quase sempre com qualidades e defeitos humanos. Claro que a boa ficção científico trata de mostrar a reação humana perante o desconhecido seja no espaço ou no futuro, a questão é que poucas ficções ousam abordar o universo como algo realmente desconhecido ao homem e é isso que temos em Solaris, tanto no livro de Lem como no filme de Tarkóvski.

Se o filme de Tarkóvski é ou não mesmo uma resposta soviética à 2001: Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick, não sei dizer, tampouco encontrei fontes que confirmassem que isso foi dito na época. Sei que estamos diante de grandes exemplos de boa ficção científica no cinema, filmes que ousam discutir o que realmente encontraremos entre as estrelas. Solaris merece ser visto e lido por todo fã da boa ficção científica. O filme pode ser encontrado em Blu-Ray pela Versátil Home Video numa excepcional edição especial com o filme, vários extras e um pôster. O livro será relançado em breve pela Editora Aleph, em nova tradução. Edições antigas, com outras traduções, podem ser encontradas ainda na Estante Virtual.



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O Sentinela Positrônica é um Blog Parceiro da Editora Aleph.
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Daniel Rockenbach, um estranho numa terra estranha que decidiu compartilhar suas leituras sobre ficção científica em suas mais diversas manifestações.

Seu instagram é @danielrockenbach.

14 de abril de 2016

Planeta Indomável

*Resenha feita durante a Mostra Sci-Fi no MIS realizada entre 11 e 15 de abril no Museu da Imagem e do Som de Campo Grande, MS.

Capa do filme em home video
Planeta Selvagem é uma animação do diretor René Laloux produzida entre França e Tchecoslováquia em 1973. O filme ganhou o Prêmio Especial do júri em Cannes em 73 e é baseado no livro "Oms en série" do autor francês Stefan Wul. Planeta Selvagem estreou nos EUA como Fantastic Planet e foi levado ao país por ninguém menos que Roger Corman. A animação conta a história do planeta Ygam e os Draags, seres azuis gigantes de uma civilização altamente avançada que um dia visitaram a Terra e levaram humanos ao seu planeta. Esses homens passaram a ser chamados Oms e foram adotados como animais pelos Draags que se dedicaram a domesticar alguns Oms enquanto o resto foi abandonado na natureza selvagem do planeta Ygam.

O Planeta Selvagem do título é na verdade a Lua de Ygam, algo que o espectador fica sabendo ao longo da projeção. A relação entre Oms e Draags define a narrativa da animação que começa apresentando uma Om selvagem com seu filho enquanto 3 crianças Draags brincam com a humana em fuga. A mãe acaba morta com a brincadeira inocente, porém cruel, das crianças Draags e cabe ao Draag chamado Mestre Singh, um dos líderes políticos do planeta, e sua filha Tiva resgatarem o pobre bebê Om sobrevivente. Tiva adota o "animal" e o nomeia Terr, assim floresce a relação dono/mascote entre a jovem Draag e o bebê Om. A história se desenvolve com Terr aprendendo a usar o método de aprendizagem artificial dos Draags por acidente e, com isso, desenvolvendo sua inteligência até o dia em que decide fugir e acaba encontrando os outros Oms, esses não-domesticados e com uma cultura tribal já desenvolvida. Nesse meio tempo, o alto conselho Draag discute formas de reduzir e controlar a população de Oms em Ygam.

A Draak Tiva e o pequeno Om Terr

O filme trata da relação de poder entre opressor e oprimido, mostrando o ser humano no papel do animal domesticado ou selvagem, subvertendo os papeis e colocando os Draags como nossos senhores. Naturalmente a relação não funciona e esse é o mote do filme. A animação é precursora ao estilo futurista fantástico proposto pela Metal Hurlant no final da década de 70, a mesma Heavy Metal nos EUA que em 81 ganhou um longa-metragem de animação que poderia muito bem incluir Planeta Selvagem entre seus segmentos. Os cenários fantásticos lembram muito os desenhos de Druillet e Moebius, especialmente a fase da Garagem Hermética e Azrach de Moebius. A animação me lembra o estilo de Terry Gilliam em sua fase psicodélica no grupo Monty Python, um grande indicativo da qualidade do filme. Infelizmente o filme é muito difícil de encontrar no Brasil, até mesmo pra importação. Uma edição especial em Blu-Ray da Criterion é prevista pra junho desse ano, com isso, nos resta torcer pra que uma distribuidora decida trazer essa pérola da animação ao Brasil. A Versátil já se mostrou uma excelente candidata, vamos torcer pra que isso aconteça!

O mundo selvagem (e surreal) de Ygam assola Terr e sua companheira Om


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13 de abril de 2016

A coisa que veio do espaço sideral!

*Resenha feita durante a Mostra Sci-Fi no MIS realizada entre 11 e 15 de abril no Museu da Imagem e do Som de Campo Grande, MS.

Poster do filme de 82, de John Carpenter
O Enigma de Outro Mundo ou, traduzindo do original em inglês, A Coisa (The Thing de 1982) de John Carpenter é uma refilmagem do clássico de "Cristian Niby", O Monstro do Ártico (The Thing from Another World de 1951) que por sua vez é uma adaptação do conto "Who goes there?" de John Wood Campbell Jr. publicado na revista pulp Astounding Stories em 1938. As aspas pro diretor de O Monstro do Ártico, Cristian Niby, são justificadas pelo fato de o filme ser praticamente todo dirigido por Howard Hawks, um dos diretores favoritos de John Carpenter. Como Hawks era sempre associado a grandes produções e a ficção científica dos anos 50 ainda era constantemente associada a filmes B e produções menores, Niby ganhou os créditos já que assistiu o trabalho de Hawks em toda a produção. Carpenter, um grande fã do filme original, resolveu homenagear e repensar o filme em 1982 com seu assustador e paranoico Enigma de Outro Mundo.

Poster do filme original, de 1951
A trama aborda a paranoia em uma estação de pesquisa norte-americana no Ártico onde o contato com a humanidade é mínimo, os recursos demoram a chegar e uma nevasca pode comprometer toda a rotina da estação. O filme começa com um helicóptero em perseguição ao que o expectador logo persegue ser um inocente cachorro, correndo por sua vida rumo à estação norte-americana. Os habitantes da estação não entendem nada do que está acontecendo, um acidente com o helicóptero acontece e apenas o cão sobrevive. Logo os habitantes da estação percebem que o cachorro tinha algo errado, que na verdade se revela um ser alienígena capaz de mimetizar qualquer ser vivo com quem ele tenha encontrado. O resultado disso acaba sendo um clima de paranoia e desconfiança na base agora que os habitantes sabem que qualquer um deles pode ser o alienígena...

Kurt Russel, o protagonista ou um dos possíveis candidatos
a alienígena
Misturando cenas tensas com puro horror e asco, Carpenter usa a câmera em ambientes fechados, frios e opressores pra expor no filme o clima de tensão entre os personagens do filme. Em nenhum momento o expectador está seguro sobre quem pode ser o alienígena, mesmo Kurt Russel, o rosto familiar de um protagonista perante o público escapa do clima de paranoia que ali se instala. A única constatação é dada pelo cientista chefe da base que calcula que se a criatura sair da base, em no máximo 3 anos ela pode ocupar todo o planeta uma vez que, em contato com um ser, ela aparentemente também aumenta sua capacidade de se multiplicar. Essa paranoia toda tem uma inspiração nos tempos da Guerra Fria, principalmente no "MacCarthismo" quando o senado norte-americano procurava comunistas em todos os meios, incluindo nas artes e no cinema. Uma vez infiltrado em um lugar, o comunismo supostamente se espalharia país afora.

Certeza que a criatura chegou naquilo...

Outro ponto a se destacar é a forma como o horror é apresentado: H. P. Lovecraft e suas terríveis criaturas com tentáculos e capazes de monstruosidades inomináveis é outra grande referência de Carpenter na caracterização do monstro. Ao invés de escolher um visual definido pro alienígena, ele define que o mesmo pode assumir qualquer forma e, quando revelado, os tentáculos e garras em cena lembram muito as criaturas de Lovecraft, um autor que trazia muitos de seus monstros do espaço, vide Nas montanhas da loucura, A cor que caiu do espaço, A Sombra de Insmouth e outros tantos contos do autor. O Enigma de Outro Mundo infelizmente fracassou nas bilheterias em 82, a infelicidade veio em grande parte da escolha da data de lançamento do filme: o mesmo final de semana de estreia de E.T. de Steven Spielberg. Na briga pela audiência entre o carismático E.T. e a criatura sem rosto de Carpenter, quem venceu foi Spielberg. O fato é que não tardou ao público redescobrir esse clássico em VHS e nas décadas seguintes a fama cult do filme só cresceu, ao ponto de hoje ser lembrado como uma das obras-primas de Carpenter.

Antes de assistir Enigma de outro mundo, tenha certeza de estar com o estômago vazio...

O filme pode ser encontrado em Blu-Ray e DVD nas grandes lojas bem como a prequel lançada em 2011 que conta o que aconteceu antes da cena de abertura do filme, uma prequel bem interessante apesar de não ter todo o toque a mais que Carpenter colocou em seu filme. O Monstro do Ártico pode ser encontrado no box Clássicos Sci-Fi Volume 2 da Versátil Home Video, aqui destaco Carpenter entre os extras do filme onde ele comenta toda sua admiração pelo filme e pelo diretor Howard Hawks.



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